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Carnaval 2026 no Brasil: se você acha que tudo é festa, aparentemente você errou!

  • Foto do escritor: Freitas Netto
    Freitas Netto
  • há 10 horas
  • 5 min de leitura


Todo ano, as marcas entram no Carnaval como se estivessem abrindo um comercial com confete, trio elétrico e multidão na rua.

Só que um recorte recente de pesquisa Hibou em parceria com a Score, sugere um desencaixe incômodo entre o imaginário publicitário e a vivência real do feriado.

E se o maior “tema” do Carnaval 2026 não for a folia, mas o descanso?

O dado que muda a narrativa

Quando perguntadas sobre planos para o período:

73,2% das pessoas dizem que vão ficar em casa. Só 7,3% declaram que vão para bloquinhos.

Em vez de uma experiência coletiva de rua, o que emerge é um feriado vivido como pausa doméstica. Mais do que “a maior festa popular”, o Carnaval aparece como um intervalo de recuperação.

A própria percepção do feriado reforça esse enquadramento: a associação mais citada é “um descanso para a mente” (51,8%). Maratonar séries e filmes (26,4%) e curtir com a família (25,4%) aparecem como significados recorrentes.

O Carnaval aqui se comporta como recesso emocional.

Se a marca continua falando com o Brasil como se o Brasil estivesse majoritariamente na rua, ela escolhe conversar com uma minoria. Barulhenta, visível, culturalmente potente. Mas ainda assim minoria.

Dois Carnavais convivendo no mesmo feriado

O material revela um feriado bifurcado, com duas lógicas bem diferentes.

De um lado, a lógica do reset: quem fica em casa descreve um Carnaval de maratona (48%), sono prolongado (36,3%), não fazer nada (27,3%), faxina (27%) e até atividade física (23,5%).

Esse conjunto é interessante porque mistura descanso com pequenos gestos de reorganização. Como se o feriado fosse também uma tentativa de retomar controle do corpo e do espaço depois de meses de rotina intensa.

Do outro, a lógica do social intenso: para quem vai para a rua, a experiência é mais operacional do que romântica.

O “não pode faltar” é água (65,2%), amigos (64%), música boa (63,4%), calçado confortável (54,9%) e protetor solar (48%).

A cultura está ali, mas o corpo e a logística estão na frente.

E isso tem uma consequência direta: existe uma comunicação de Carnaval para a rua, mas existe outra, ainda subaproveitada, para a casa. E a segunda é muito mais massiva.

Preocupações do Carnaval: segurança e infraestrutura

Outro achado importante da pesquisa é como a insegurança organiza a percepção do período.

Entre quem aponta alternativas relacionadas a “pular Carnaval”, 57,8% dizem que segurança nas ruas preocupa.

E quando o estudo pergunta sobre o maior perrengue do bloquinho, o primeiro lugar é “precisar ir ao banheiro” (81,2%). O segundo é “falta de segurança” (51%).

Do ponto de vista cultural, isso é brutal.

O maior festival popular do país, para quem está na rua, é lembrado não pelo glamour, nem pela fantasia, mas por infraestrutura básica e risco.

Para marcas e plataformas, isso abre um território de relevância real: utilidade, suporte, facilitação, pontos de apoio, serviços que resolvem fricções de comportamento. Nem toda marca consegue atuar nesse nível, mas toda marca pode aprender com a lógica.

Menos discurso e mais solução.

Carnaval funciona quando o corpo está ok. E corpo ok depende de água, sol, descanso, mobilidade, higiene e segurança.

Carnaval de conforto rápido e baixo ticket

O conjunto de comidas mais citadas para o período do Carnaval é: churrasco (11%), pizza (9%), delivery (7%), sorvete (7%), comida congelada (6%).

É conforto, praticidade e recompensa rápida. O Carnaval doméstico é, em grande parte, Carnaval de atalhos.

E quando o estudo olha para gasto extra, o retrato é de contenção: 49,4% pretendem gastar até R$ 250, e 22,9% não pretendem gastar nada.

Ou seja: um feriado culturalmente enorme, mas economicamente moderado para a maioria.

Aqui existe uma lição importante para quem faz campanha.

Muita marca entra em Carnaval como se fosse um momento de consumo expansivo, quando o comportamento declarado sugere micro indulgências.

Oportunidades existem, mas elas tendem a estar mais na lógica do pequeno presente do que na do grande investimento.

Carnaval digital

Quando perguntadas sobre qual rede social será mais usada no período, as pessoas apontam Instagram na frente (56,2%), seguido por YouTube (21,9%). TikTok aparece com 6%.

E um dado que costuma passar despercebido é o mais estratégico: 39,9% dizem que vão usar as redes “como sempre”.

Isso aponta que o Carnaval, para muita gente, não é uma ruptura de hábitos digitais. É só um cenário diferente para os mesmos rituais: scroll, vídeo longo, socialização.

E faz sentido quando o estudo mostra quais plataformas de vídeo e streaming dominam a casa: Netflix (62,5%), Amazon Prime (29,7%) e YouTube (24,4%).


O Carnaval doméstico é, em grande parte, Carnaval de tela.

Se a marca quer estar no Carnaval real de 2026, precisa encarar uma pergunta simples: estou desenhando mensagens para a rua ou para a sala?

Diferenças geracionais


O recorte por idade explicita duas coisas.

Primeiro, a rua é mais jovem: a intenção de ir para bloquinhos é 12% até 34 anos e cai para 2% em 55+.


Segundo, o medo cresce com a idade: 86% em 55+ dizem se preocupar com segurança, contra 42% até 34.

Na prática, isso significa que “Carnaval para todo mundo” é, quase sempre, uma forma bonita de dizer “Carnaval para ninguém”. Comunicação genérica demais acaba não tocando seu público.

E até os códigos culturais mudam: marchinhas ganham força conforme a idade aumenta, passando de 29% entre até 34 anos para 46% entre 35 a 54 e chegando a 61% no público 55+. Já o axé faz o caminho inverso: é preferência de 50% dos mais jovens, cai para 38% na faixa intermediária e recua para 21% entre os mais velhos.

Repertório musical, aqui, não é detalhe. É marcador geracional de memória, identidade e forma de viver o Carnaval.

Três tensões que podem virar insight de marca

A parte mais rica desse tipo de estudo não é só o número. É a contradição que ele revela.

A primeira tensão é querer curtir e sentir medo ao mesmo tempo. Existe desejo de sociabilidade, mas existe receio. Marcas que abordam isso com utilidade e cuidado tendem a soar mais pertinentes do que marcas que fingem que esse medo não existe.

A segunda tensão é o imaginário de excesso versus a realidade de descanso. Só 5,1% definem o feriado como “hora de extrapolar e aproveitar muito”. Para a maioria, é reset. O Carnaval da propaganda costuma ser um. O Carnaval vivido é outro.

A terceira tensão é cultura popular massiva versus infraestrutura frágil. Banheiro ser o maior perrengue tem um simbolismo forte: o feriado é grande, mas a experiência é vulnerável. Aqui mora um tipo de relevância que publicidade tradicional costuma subestimar.


Se eu tivesse que resumir em uma frase: Carnaval 2026 pede menos fantasia de massa e mais leitura de comportamento.


Para marcas, isso pode significar construir uma narrativa dupla, com mensagens diferentes para casa e para rua. Pode significar calibrar ofertas para baixo ticket e micro indulgências. Pode significar abandonar o impulso de “falar alto” e buscar o território de “resolver fricções”, quando for possível.


Quando a marca entende qual Carnaval o público está vivendo, ela não precisa gritar para ser ouvida. Ela fala a linguagem certa, no lugar certo, com o código certo.


Fonte: Pesquisa Hibou/SCORE, “Carnaval 2026” (painel digital, Brasil, 18+).



Antônio Netto

Planejamento Estratégico e Consumer Insights

Vencedor do Prêmio Amigos do Mercado 2024 – Planejamento Publicitário

Host do podcast Papo Bizz 🎙️


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