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O que faz uma publi funcionar no TikTok? Os principais achados da minha pesquisa de mestrado

  • Foto do escritor: Freitas Netto
    Freitas Netto
  • há 5 dias
  • 16 min de leitura

Defendi recentemente minha dissertação de mestrado, sob o título "TikTok Marketing: uma análise das estratégias de storytelling digital em publicações patrocinadas de criadores de conteúdo". Este artigo é uma forma de sintetizar esse trabalho e colocá-lo para circular fora do meio acadêmico.


Faço isso por uma razão simples. Os achados têm relevância teórica para os estudos de comunicação e marketing, mas têm relevância igual, talvez maior, para quem decide campanha na prática: marcas, agências e creators.


Deixar a pesquisa presa na banca e em um PDF de quase duzentas páginas seria abrir mão da sua parte mais útil. Então resolvi democratizar os achados e traduzir a dissertação para a mesa de planejamento.


No TikTok, a publicidade não falha quando aparece. Ela falha quando interrompe o pacto narrativo entre creator e audiência.

Essa talvez seja a principal conclusão a que cheguei no meu mestrado, depois de analisar como creators brasileiros transformam marcas em narrativa dentro da plataforma.


Por ser uma pesquisa qualitativa, o recorte foi menor, mas profundo: quinze vídeos patrocinados, três creators de nichos distintos, publicados no primeiro semestre de 2025. Com base em critérios pré-definidos e que respondiam a uma rigorosa metodologia, esses foram os nomes dos creators analisados no TikTok:


Amanda Mendes (@todecrespa) no universo de beleza e cabelo crespo; Matheus Wobeto (@matheuswobeto) no humor relacional de classe média; Anna Egreja (@annaegreja) na curadoria de lifestyle. Dentre esses creators, foram realizadas publis para marcas como Dove, Assaí, Nescafé, O Boticário, Sprite, Bio Extratus, Chupa Chups e Stabilo.


Netnografia, entrevistas com os próprios creators e leitura das métricas nativas, tudo cruzado dentro de um mesmo protocolo de análise.


O que começou como uma pergunta acadêmica sobre storytelling digital terminou em uma conclusão que mexe diretamente com a forma como marcas e agências contratam influência.


No TikTok, uma publi funciona menos porque o produto aparece muito ou porque o vídeo alcança muita gente. Ela funciona quando existe coerência entre a história contada, a forma como o creator construiu sua credibilidade e o jeito como aquela marca entra na conversa com a audiência.


Quem trata alcance como sinônimo de resultado está medindo a variável errada.


Vou te explicar melhor e desenvolver como cheguei até aí.


Como olhei para os vídeos


Antes dos achados, uma palavra sobre o método, porque é ele que separa intuição de evidência. Cada vídeo foi lido em três camadas simultâneas. Na camada narrativa, usei os sete elementos do storytelling digital sistematizados por Lambert (ponto de vista, pergunta dramática, conteúdo emocional, dádiva da voz, trilha, economia narrativa e ritmo) para entender como o creator organiza microarcos em poucos segundos.


Na camada estética, examinei a linguagem do conteúdo gerado pelo usuário (UGC), o improviso aparente, a performatividade do "eu ordinário".


Também usei o modelo AIDA (Atenção, Interesse, Desejo e Ação), mas não como um funil rígido de compra. Usei como uma forma de observar onde o vídeo captura atenção, sustenta interesse, desperta desejo e propõe alguma ação. Depois, cruzei essa leitura com entrevistas feitas com os próprios creators, para não depender apenas da minha interpretação externa sobre os conteúdos.


Esse desenho importa porque permitiu enxergar o que as métricas sozinhas escondem. E foi justamente o cruzamento entre o que os vídeos mostram e o que os creators dizem que produziu as três contribuições do meu trabalho de pesquisa.


O problema real começa depois que a atenção já foi conquistada


O ponto de partida é conhecido. A atenção virou recurso escasso, e a publicidade interruptiva ativa uma resistência imediata em públicos socializados na lógica do scroll infinito.


Diante disso, o poder de persuasão se deslocou para dentro do fluxo, integrado à narrativa do creator em vez de competir com ela. Até aqui, nada que o mercado já não pratique de forma intuitiva.


A questão que a literatura deixou em aberto, e que a análise empírica permitiu enfrentar, é outra:


o que exatamente faz uma narrativa patrocinada funcionar quando ela funciona.

A resposta não está só no carisma do creator nem no tamanho da audiência. Está em como o conteúdo é construído: que história ele conta, como a marca entra nela e que tipo de reação ele espera provocar.


Achado 1: o storytelling patrocinado opera em CINCO TIPOLOGIAS com funções estratégicas diferentes

A primeira descoberta foi sistematizar os modos recorrentes de organizar a narrativa. Cinco tipologias apareceram de forma consistente no recorte da pesquisa, e o mais importante é que cada uma cumpre uma função persuasiva distinta.


Vale percorrer uma a uma, porque a diferença entre elas é justamente o que orienta a decisão de campanha.


1. Demonstrativo funcional

Nessa tipologia, o creator apresenta o benefício de forma direta, com correspondência entre o que se fala e o que se mostra. Persuade por prova rápida e clareza imediata, ancorado na autoridade de quem fala como usuário.


Um exemplo, entre os vídeos analisados na pesquisa, é a publi da Amanda Mendes para a Dove.



O comportamento que aparece é silencioso, mas importante: salvamentos e compartilhamentos discretos. A audiência guarda aquele conteúdo porque enxerga nele uma dica, um passo a passo ou uma referência útil para usar depois.


Como a estrutura é simples e fácil de entender, esse tipo de conteúdo tem mais chance de circular para públicos amplos, inclusive entre pessoas que não acompanham aquele creator.

2. Transformação "antes e depois"


Estrutura a narrativa pela expectativa de resultado, convertendo um processo em evidência. O valor do produto aparece como mudança observável, que pode operar em registro funcional, afetivo ou simbólico.


O mecanismo é a promessa visual de resultado somada a um ciclo breve de tensão narrativa que se resolve pela mediação do produto.


Um exemplo dessa tipologia é a publi da campanha da Bio Extratus com Amanda Mendes, que abre com a pergunta direta "cabelo ressecado, né?" e entrega a virada.



Esse tipo de conteúdo tende a gerar salvamentos, porque a audiência guarda o passo a passo ou a promessa de resultado para consultar depois. Também estimula compartilhamentos mais relacionais, quando alguém envia o vídeo para outra pessoa que vive o mesmo problema ou deseja o mesmo resultado.


Por ser uma estrutura fácil de reconhecer, o “antes e depois” também tem forte potencial de circulação.


3. Esquetes


Nas esquetes, a força está na repetição de situações, personagens e piadas que o público já conhece. A marca funciona quando entra nesse universo sem quebrar a lógica do humor. O público não está ali para receber uma oferta direta; está ali para reconhecer uma situação, rir dela e marcar alguém que também entenderia a piada.


É a dinâmica que organiza praticamente todo o repertório de Matheus Wobeto com o Assaí, por exemplo, com a marca integrada ao contexto do vídeo, dentro de uma convenção que a audiência já espera encontrar.



O comportamento típico é a marcação de terceiros e o compartilhamento interpessoal: o público nomeia alguém nos comentários e reforça vínculos por meio da piada. Aqui, o potencial não é necessariamente viralizar. É criar presença recorrente dentro de uma comunidade que já entende os códigos daquele creator.


4. Processual do fazer


Aqui entram os tutoriais e conteúdos de passo a passo. A força desse formato está no valor prático: a audiência entende como fazer, salva para consultar depois e passa a enxergar o produto como parte do processo. A persuasão não vem de uma promessa abstrata, mas da demonstração concreta de uso.


Nos vídeos analisados, essa tipologia aparece no tutorial de Anna Egreja para a Loungerie.




O indicador mais característico é o salvamento como retenção do protocolo prático, com a audiência guardando o conteúdo para executar depois. Opera como formato de estabilização, ancorado em valor de uso e reaplicação dentro de comunidades específicas.


5. Registro situacional e mediação social


Sustenta o engajamento pela presença do creator e pela tradução cultural do contexto narrado, variando entre cobertura externa, relato autobiográfico e construção aspiracional. Persuade por sociabilidade, identificação biográfica ou pertencimento simbólico.


É a dinâmica mais presente nos conteúdos de Anna Egreja, mobilizada nas coberturas do Nescafé, e aparece também nas campanhas aspiracionais de Amanda Mendes para a Santa Lolla, em que a marca entra dentro de um acontecimento.



O comportamento que gera vive nos comentários, território de relato e construção coletiva de repertório, com validação social distribuída. É o único formato de potencial híbrido: amplifica ao se inserir numa conversa cultural ou aspiracional e, ao mesmo tempo, produz pertencimento situado.


A distribuição dessas tipologias no recorte da pesquisa não é aleatória, e isso diz muito. Matheus Wobeto se concentra integralmente em esquetes, o que sustenta a estabilidade da sua persona. Anna Egreja gravita em torno do registro situacional e da mediação social. Amanda Mendes é a que mais transita entre formatos.


Cada creator carrega, portanto, um repertório tipológico próprio. Contratar um creator é, na prática, contratar um repertório, e ignorar isso é a origem de boa parte das campanhas que não engatam.

O insight estratégico não está na nomenclatura em si. Está na função que cada tipologia cumpre dentro de uma arquitetura de circulação.


Algumas narrativas funcionam como ativo de amplificação. Têm estrutura simples, tema universal, fácil de entender por públicos diferentes, e por isso circulam para públicos amplos. Outras funcionam como instrumento de estabilização simbólica (relacionamento). Dependem de repertório comunitário, histórico do perfil, códigos internos do nicho, e por isso fixam a marca no cotidiano de uma audiência específica, construindo vínculo de médio prazo.


Por trás disso existe um ponto central: o creator traduz a marca para a linguagem da sua própria comunidade.

A marca nunca chega ao público “pura” ou isolada. Ela é traduzida pela linguagem do criador, ganha códigos próprios da plataforma e se transforma em uma narrativa que faz sentido dentro da cultura da audiência.


Na entrevista que fiz, Matheus Wobeto descreveu isso com precisão ao dizer que seu trabalho é perceber como aquilo que ele faz na internet cruza com o que a empresa quer comunicar.


Nessa tradução, o produto assume três funções recorrentes: mediador de um estado subjetivo (exemplo, a Sprite como catalisadora da "cabeça fria" na transição entre caos e equilíbrio); infraestrutura ordinária do cotidiano (exemplo, o freezer do Assaí virando refúgio para escapar do calor do verão nos esquetes de Matheus Wobeto); ou signo de sociabilidade e pertencimento (exemplo, a Chupa Chups operando como objeto de troca e afeto dentro da lógica ritual do carnaval, no vídeo de Anna Egreja).


Não basta escolher o formato certo. É preciso entender qual papel aquela marca vai cumprir dentro da história: resolver um problema, representar um estilo de vida, criar pertencimento ou mediar uma situação cotidiana.


A consequência prática é dura para o mercado. A eficácia mora na coordenação entre tipologias ao longo do tempo, algo que a maximização de uma métrica isolada jamais captura.


Uma campanha que aposta tudo em viralização perde a construção de vínculo. Uma que aposta tudo em vínculo perde escala. A distinção entre amplificar e estabilizar é uma das lacunas mais persistentes do marketing de influência, que trata alcance como proxy universal de eficácia e ignora que visibilidade e fazer sentido para a audiência se dissociam com frequência.


A seleção de creators, nesse quadro, deixa de ser uma conta de seguidores e passa a ser uma decisão sobre adequação entre o repertório do creator e o objetivo da marca em cada fase da campanha.


Vale uma ressalva importante. As cinco tipologias funcionam como formas de leitura que se combinam, sem operar como caixas estanques. Cada vídeo é caracterizado por uma tipologia dominante, que organiza a estrutura narrativa principal, e admite, quando faz sentido, uma tipologia secundária como camada complementar de sentido.


A sistematização oferece uma chave de leitura derivada da comparação entre os quinze casos, sem a pretensão de esgotar as variações narrativas possíveis no TikTok.


Achado 2: a AUTENTICIDADE é um efeito sociotécnico construído dentro do conteúdo


O segundo eixo foi o mais contraintuitivo. A autenticidade no TikTok não nasce simplesmente porque o creator parece espontâneo. Ela é construída no jeito de gravar, na história que ele escolhe contar, na estética que usa e na relação que já criou com a audiência. O público acredita menos na “naturalidade” em si e mais na coerência entre aquele conteúdo, aquele creator e aquela marca.


É uma autenticidade performada, sustentada por convenções reconhecíveis da plataforma e continuamente negociada com o público.


A estética do conteúdo gerado pelo usuário (UGC) é o motor disso. Ambientações cotidianas, enquadramentos informais, marcas de espontaneidade e a performatividade do "eu comum" produzem proximidade simbólica e naturalizam a presença da marca.


A análise mostrou três formas principais pelas quais os creators constroem credibilidade quando inserem marcas em seus conteúdos.


1. Autoridade experiencial e demonstração situada


A credibilidade nasce da posição de quem fala como usuário, demonstrando o produto dentro de uma experiência cotidiana. O mecanismo é a proximidade simbólica e a recorrência relacional: fala em primeira pessoa, oralidade marcada e ancoragem na rotina funcionando como prova narrativa.


As marcas observáveis são o cenário doméstico, o tom confessional, a demonstração funcional e a estética de captura orgânica, com o produto integrado ao dia a dia da creator.


Aqui, a legitimidade da marca vem do uso demonstrado em contexto real, validado por quem fala de dentro da própria rotina.

2. Coerência estilística e continuidade do personagem


A credibilidade vem da manutenção de uma matriz performática e da continuidade de uma persona consolidada, com a marca inserida em estruturas narrativas que a audiência já reconhece.


O mecanismo é o contrato ficcional consolidado: a repetição performática vira um pacto estético, e a persona passa a ser a instância que organiza a inserção publicitária. As marcas observáveis são a convenção de POV, o texto em tela como enquadramento, o humor relacional e a integração diegética da marca, com a lógica de entretenimento preservada acima da mensagem comercial direta.


É o formato predominante em todas as unidades de Matheus Wobeto, por exemplo, estruturadas como esquetes.


A marca funciona porque entra dentro de uma convenção que o público frequenta há tempo e reconhece como território daquele creator.

3. Mediação curatorial e regime de presença


A credibilidade vem da consistência das escolhas, da vivência e da forma como a creator conduz o contexto narrado, com o creator atuando como tradutor entre tendência e cotidiano.


O mecanismo é a autoridade curatorial: a coerência das recomendações ao longo do tempo e a ponte social do acontecimento funcionam como evidência de presença legítima.


As marcas observáveis vão do relato autobiográfico ao tutorial passo a passo, da reportagem informal à construção aspiracional, sempre com centralidade da estética visual e coerência entre escolha estética e identidade narrativa.


A marca ganha legitimidade por estar inscrita num histórico de curadoria que o público aprendeu a confiar.

O que une os três formatos é um princípio comum. Nenhum deles se sustenta pela ocultação da intenção comercial ou pela simulação de espontaneidade.


Todos se sustentam pela coerência interna entre os elementos performativos, estéticos e narrativos que organizam a presença da marca. É essa coerência que separa o patrocínio aceito do patrocínio rejeitado, muito mais do que o grau de disfarce da venda.


A credibilidade não se rompe quando a publicidade fica visível. Ela se rompe quando a publicidade fica visível de forma incoerente com o pacto que o creator construiu com a audiência.

Em entrevista, Matheus Wobeto descreveu como a tentativa de inserir uma lógica de venda direta "quebra muito o ritmo" e soa estranha, e como uma proposta na qual ele não se reconhece "fica algo muito truncado, fica uma coisa falsa".


Anna Egreja, também em entrevista, relatou um caso em que cedeu integralmente à estética da marca depois de tentativas frustradas de propor narrativa própria: o resultado ficou visualmente correto e narrativamente vazio para a comunidade dela.


Isso desloca o problema da autenticidade da esfera da ocultação para a esfera da coerência. A pergunta deixa de ser se o patrocínio está declarado. A pergunta passa a ser: a presença da marca é compatível com a identidade narrativa que o creator já consolidou?


Declarar o patrocínio nunca foi o problema. Trair a expectativa relacional da audiência, sim.


Tecnicamente, isso aproxima o que observei do que a literatura chama de ativação de resistência persuasiva: quando a intenção comercial se torna dissonante demais em relação ao repertório do creator, o público reage à quebra do pacto que aquele anúncio representou.


Achado 3: o AIDA clássico não descreve o que acontece no TikTok


O terceiro eixo levou a repensar um dos modelos mais antigos da publicidade. O funil AIDA, Atenção, Interesse, Desejo e Ação, pressupõe progressão linear e cumulativa, com o consumidor avançando etapa por etapa até a conversão.


O que a pesquisa mostrou é que, no TikTok, essa jornada não acontece em linha reta. A persuasão não acontece em sequência. Ela aparece ao mesmo tempo em vários elementos do vídeo: na história, no jeito como o creator fala e se comporta, nos textos de tela, nas legendas, nos cupons, nas hashtags, nos comentários fixados e na forma como o conteúdo circula depois.


Essas dimensões atravessam o conteúdo inteiro e podem ativar qualquer um dos quatro estágios em camadas e momentos diferentes.


Cada estágio do AIDA se reconfigura.

A Atenção deixa de ser captura momentânea do olhar e passa a operar como reconhecimento de familiaridade estética e cultural, acionada por quatro tipos de gancho que identifiquei no recorte da pesquisa: o estético-aspiracional (a abertura poética em crepúsculo da campanha do O Boticário), o de problema imediato e reconhecimento situacional ("cabelo ressecado, né?"), o paratextual por convenções nativas como POV e texto em tela, e o reflexivo por perguntas contrafactuais.


O Interesse vira estabilização provisória do vínculo, microcompromissos de permanência ao longo da economia temporal do vídeo. E o Desejo desloca-se do produto para estados simbólicos como alívio, pertencimento, controle, recomeço e sofisticação, aproximando-se da ideia de consumo como extensão do self.


Na campanha da Sprite, o que se deseja é a "cabeça fria" que a bebida media. Na do Nescafé, é pelo pertencimento ao acontecimento social.


E a Ação, que é onde o mercado costuma cravar o olhar, raramente aparece como um "compre agora". No recorte da pesquisa, ela se manifestou de quatro formas


A ação implícita, por normalização, em que o produto entra na cena de forma tão natural que dispensa qualquer chamada explícita. A ação híbrida, com a conversão deslocada para o paratexto, ou seja, para o cupom, a legenda, o link. A ação promocional, ancorada em urgência temporal, do tipo oferta por tempo limitado. E a ação ritualizada e relacional, na qual o próprio engajamento com o conteúdo, marcar, comentar, participar, vira a porta de entrada para uma experiência ou recompensa.


O ponto que importa para quem planeja é este: a Ação no TikTok é quase sempre efeito acumulado de tudo que veio antes, da atenção ganha à credibilidade construída. A conversão funciona como continuidade do fluxo narrativo, sem quebrá-lo.


E há um ponto que veio direto da entrevista com Matheus Wobeto, que ajuda a entender por que a Ação se comporta assim. Ele não enxerga o próprio perfil como um espaço de venda e descreve o que faz como conteúdo de awareness, mais do que de conversão: "Quando as pessoas veem que tem alguma venda, alguma coisa ali, elas já passam no vídeo".


É justamente para preservar a fluidez do vídeo e o pacto de entretenimento que a conversão migra para a legenda, para o cupom, para o paratexto. O creator protege a narrativa no corpo do conteúdo e desloca o comando comercial para a borda.


Por isso, cobrar conversão direta de um conteúdo que ainda não fez o trabalho de legitimação é inverter a ordem das coisas.


O AIDA, no TikTok, descreve menos um roteiro de condução do consumidor e mais um sistema de engajamento contínuo, no qual diferentes configurações narrativas cumprem papéis complementares.


O paradoxo do alcance: por que viralizar pode enfraquecer a marca


Esse foi o achado que mais tensiona a prática de mercado, e por isso merece seção própria. Três dos quinze vídeos tiveram desempenho de visualização muito acima dos demais: a campanha da Sprite com Amanda Mendes, perto de 5,7 milhões de visualizações, a da Allegra com Anna Egreja, cerca de 4,5 milhões, e a do Assaí com Wobeto, aproximadamente 3 milhões.


Patamares assim sugerem vetores adicionais de circulação, como formatos colaborativos ou amplificação paga, ainda que a plataforma não permita verificar isso publicamente.


O que as entrevistas revelaram é que a amplificação paga não é atalho. Egreja foi cirúrgica: "se impulsionar sem estratégia, se o conteúdo não foi uma coisa que gere conexão ou que engaje, não vai adiantar muita coisa". O impulsionamento potencializa conteúdo que já funciona organicamente, sem substituir a eficácia narrativa. Dinheiro amplifica adesão existente, ele não a fabrica.


A parte mais relevante para o planejamento é o que o alcance ampliado faz com a própria narrativa. Quando um vídeo sai da bolha do creator e alcança pessoas que não conhecem seu histórico, seus códigos e seu jeito de falar, ele muda de natureza.


Deixa de ser uma conversa com a comunidade e passa a ser um conteúdo sendo interpretado por públicos muito mais amplos e muito menos familiarizados com aquele contexto.


As condições de interpretação mudam. O conteúdo precisa de mais autonomia narrativa, mais inteligibilidade imediata, mais clareza temática, para sustentar leitura por quem não conhece o creator.


Em outras palavras, escalar o alcance pode diluir exatamente o vínculo que tornava aquele creator valioso para a marca. Visibilidade e fazer sentido para a audiência andam em direções diferentes, e tratar circulação como evidência direta de adesão é um erro analítico recorrente.

A leitura dos comentários confirmou isso por outro ângulo. A validação no campo discursivo se manifesta menos como avaliação do produto e mais como reconhecimento da coerência narrativa do creator e da aceitabilidade da presença da marca.


E o volume de comentários não mede sucesso. Nos vídeos aspiracionais do O Boticário e da Santa Lolla, os comentários foram escassos e breves, o que não significa fracasso de recepção, mas coerência entre proposta estética e forma de resposta.


Quando o vídeo convida mais à contemplação do que ao debate, o público tende a responder com emojis, elogios visuais e comentários de admiração. A marca, nesse caso, permanece integrada ao universo simbólico do conteúdo, sem provocar ruído ou rejeição.


Nenhuma métrica, sozinha, é capaz de capturar essa diferença.


A síntese: três níveis que precisam estar afinados


Quando os três achados se cruzam, aparece a tese que organiza o trabalho. O storytelling patrocinado eficaz no TikTok opera como regime híbrido em três níveis interdependentes.


No nível narrativo, o creator é a instância central de tradução, e a marca se integra à experiência narrada em vez de se apresentar como elemento externo.


No nível da plataforma, a lógica dos vídeos curtos impõe compressão, exigindo que poucos segundos cumpram várias funções.


No nível relacional, a autenticidade (credibilidade) emerge como efeito sustentado por coerência performativa.


A consequência prática é direta. A eficácia não vem da intensidade isolada de cada estágio nem da maximização pontual da visibilidade. Vem da coerência entre função narrativa, regime de autenticidade sustentado e lógica de circulação acionada.


Uma marca pode ter o creator certo, o orçamento certo de mídia e ainda assim queimar credibilidade se forçar uma forma narrativa incompatível com o pacto daquele creator com sua audiência.

Vale registrar o que os próprios creators qualificaram. O vínculo que o TikTok produz não é uma propriedade fixa da plataforma, ele varia conforme o nicho e o regime de presença do creator. E Matheus Wobeto observou que mesmo um conteúdo narrativamente coerente pode ter o desempenho alterado pela simples marcação de patrocínio.


São lembretes de que a coerência é condição necessária, sem ser garantia automática de resultado.


O que isso muda para quem contrata influência


Para as marcas, o recado é parar de comprar alcance e começar a desenhar arquitetura. Combinar conteúdos de amplificação com conteúdos de estabilização e conversão situada, distribuídos ao longo do tempo, rende mais do que apostar tudo em viralização.


Para as agências, a seleção de parcerias precisa de critérios mais sofisticados que seguidores e engajamento médio. O que importa é a adequação entre o repertório tipológico do creator e o objetivo comunicacional da marca.


Para os creators, dominar essa lógica fortalece a posição de negociação, porque permite propor formatos com fundamentação estratégica, para além do apelo criativo.


No fundo, a pesquisa mostra que o marketing de influência não pode ser tratado apenas como compra de alcance. Ele precisa ser pensado como construção de sentido: uma combinação entre narrativa, performance, credibilidade e relação com a comunidade.


Mais do que um estudo sobre o TikTok, isso oferece uma chave para entender a publicidade em qualquer ecossistema marcado por atenção fragmentada, circulação algorítmica e credibilidade construída por coerência.


Quem trabalha com creators convive com essa intuição todos os dias. A contribuição aqui foi transformar a intuição em categoria analisável.


A pergunta que fica, então, não é apenas qual creator tem mais audiência. É outra.


Na sua última campanha de influência, o creator foi escolhido pelo tamanho da audiência ou pela capacidade real de traduzir a marca dentro de uma narrativa que a comunidade dele reconhece como legítima?

Porque essa diferença, no TikTok, pode ser justamente o que separa uma publi que passa no feed de uma marca que consegue fazer sentido dentro dele.


📖 Para quem interessar, disponibilizo a dissertação completa: https://lnkd.in/dnnZZFVf



Antônio Netto

Head de Planejamento e Conteúdo na Pullse (Grupo Dreamers).

Mestre em Administração pelo PPGA/UNIFACS, com dissertação sobre TikTok Marketing e estratégias de storytelling em publicações patrocinadas.

Vencedor do Prêmio Amigos do Mercado 2024 – Planejamento Publicitário

Host do podcast Papo Bizz 🎙️


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