Do afeto à decisão: mercado pet no Brasil 2026 [Pesquisa]
- Freitas Netto
- 8 de abr.
- 6 min de leitura

Durante anos, o mercado tratou a ascensão do setor pet a partir de uma lente relativamente confortável: a da humanização. Os animais deixaram de ser vistos como companhia e passaram a ocupar um lugar afetivo mais profundo, muitas vezes equiparado ao de um filho. Esse movimento foi amplamente documentado, explorado pelas marcas e incorporado ao discurso publicitário.
Mas os dados mais recentes mostram que essa leitura, embora correta, é insuficiente.
Porque o que está acontecendo agora não é apenas um aprofundamento do vínculo emocional. É uma mudança estrutural na forma como as decisões de consumo são tomadas.
O pet deixou de ser um elemento afetivo dentro da casa para se tornar um agente ativo na jornada de consumo.
Com cerca de 160 milhões de animais de estimação, o Brasil ocupa a terceira posição mundial tanto em número de pets quanto em faturamento do setor, segundo estimativa da ABINPET.
De acordo com a pesquisa, nos lares brasileiros, o cachorro segue como o animal mais presente, em 76% das casas, seguido pelo gato (37%), aves (8%) e peixes (4%). Mas o retrato quantitativo do mercado, por maior que seja, já não é suficiente para explicar o que está acontecendo com o comportamento do tutor brasileiro.
Do vínculo emocional ao poder de decisão
A pesquisa Opinion Box de 2026 evidencia um ponto de inflexão importante. Se antes o pet influenciava hábitos, agora ele determina escolhas.
47% dos tutores afirmam já ter deixado de frequentar algum lugar por ele não aceitar animais. Ao mesmo tempo, 56% consideram muito importante que estabelecimentos sejam pet friendly.
Esses dados não falam só sobre carinho. Falam sobre decisão.
Eles indicam que o pet passou a atuar como um critério concreto na escolha de restaurantes, hotéis, lojas e experiências. Ou seja, ele deixou de ser um "acompanhante" e passou a ser uma variável ativa no processo de consumo.
E quando se destrincha onde esse comportamento acontece, a amplitude surpreende:
50% já deixaram de ir a restaurantes ou lanchonetes, 49% a hotéis e pousadas, 33% a lojas, 28% a casas de amigos ou parentes, 25% a shoppings e 20% a prédios públicos, como museus e prefeituras.
O pet friendly deixou de ser exigência de hospitalidade premium. Virou critério de convivência cotidiana.
Isso muda completamente o jogo.
O fim do consumidor individual
Durante décadas, o marketing operou a partir de uma lógica relativamente estável: entender o indivíduo, seus desejos, suas necessidades e seus gatilhos de decisão.
Mas esse modelo começa a mostrar sinais de desgaste.
O que os dados revelam é que o consumo está se tornando cada vez menos individual e cada vez mais relacional. E, em muitos casos, multiespécie.
O pet não ocupa apenas um espaço emocional. Ele reorganiza a rotina, redefine prioridades e influencia diretamente o comportamento de compra. A escolha de um restaurante, por exemplo, deixa de ser sobre gastronomia ou preço e passa a incluir a possibilidade de levar o animal.
Uma viagem deixa de ser apenas logística e passa a considerar hospedagem adequada para o pet. 48% dos tutores chegaram a fazer adequações físicas na própria casa para garantir a segurança do animal. Até mesmo a escolha de marcas pode ser impactada por seu posicionamento em relação à causa animal.
Isso não é detalhe. É reconfiguração.
Quando o gasto deixa de ser racional
Outro dado que chama atenção é a disposição financeira dos tutores.
80% afirmam gastar o que for necessário para garantir a saúde e o bem-estar do pet.
O pet não entra mais na lógica tradicional de custo. Ele passa a ocupar um lugar semelhante ao de categorias consideradas essenciais, como saúde e alimentação familiar. Não se trata de um gasto que compete com outros. Trata-se de um investimento emocional que dificilmente é colocado em negociação.
Nos últimos três meses anteriores à pesquisa, 89% compraram ração, 59% remédios e vacinas, 45% produtos de higiene, 41% brinquedos e 12% roupas para o animal. Esse último dado, sozinho, sintetiza o estágio atual da humanização: o pet já consome moda.
Na camada de serviços, o quadro é ainda mais revelador da profissionalização do cuidado. 61% tiveram despesas com remédios, vermífugos ou vacinas, 51% com banho e tosa, 42% com consulta veterinária e 11% com plano de saúde animal.
Mas há uma segunda camada de serviços que começa a ganhar tração: 6% usaram hospedagem para pets, 6% recorreram a pet sitters, 5% matricularam o animal em creche, 4% contrataram nutricionista ou especialista comportamental, 4% investiram em fisioterapia ou acupuntura e 3% levaram o pet ao dentista.
Quando se olha para os gastos médios mensais, a maioria dos tutores concentra seus investimentos na faixa de até R$ 200 por categoria: saúde, alimentação e higiene. Mas o que importa não é o valor absoluto, é a regularidade e a ausência de negociação. O pet entrou para o orçamento fixo da família brasileira.
Pode parecer dados de "luxo", mas são dados de normalização.
Consumo como posicionamento moral
Se o pet influencia decisões práticas e financeiras, ele também começa a atuar em uma camada ainda mais sensível: a dos valores.
57% dos tutores preferem consumir de empresas que apoiam a causa animal, e 68% afirmam que se recusam a frequentar lugares com histórico de maus-tratos. Ao mesmo tempo, 69% acreditam que as leis de proteção animal no Brasil ainda não são suficientes.
As pautas que os tutores defendem são igualmente expressivas: 87% querem punições mais severas para quem maltrata animais, 77% defendem acesso gratuito ampliado a remédios e vacinas, 76% querem maior conscientização sobre adoção e 53% são favoráveis à proibição da venda de animais.
Esse último número é especialmente relevante quando se observa que 44% dos próprios tutores entrevistados já se declaram contra a compra de pets, e que 49% dos animais nos lares brasileiros foram adotados, contra apenas 30% comprados.
Estamos diante de um deslocamento importante: o consumo deixa de ser apenas funcional ou simbólico e passa a incorporar uma dimensão moral mais explícita. Escolher uma marca ou um estabelecimento passa a ser, também, uma forma de expressar posicionamento.
Nesse contexto, o pet funciona como um catalisador de valores.
O mercado pet não é mais um mercado
Talvez o maior equívoco das marcas hoje seja continuar tratando o universo pet como uma categoria isolada. Porque ele não é.
O que os dados indicam é que o comportamento relacionado aos animais de estimação está se infiltrando em diferentes setores, influenciando desde o varejo alimentar até hospitalidade, turismo, serviços e entretenimento.
Não se trata mais de "atuar no mercado pet". É entender como o pet impacta o comportamento do seu consumidor, independentemente da categoria em que a sua marca atua.
Ignorar isso é operar com um modelo de consumo que já não corresponde à realidade.
Ser pet friendly deixou de ser um diferencial e passou a ser o mínimo esperado em diversas categorias. Mas mais do que permitir a presença de animais, é necessário pensar em como integrá-los de forma consistente na experiência do consumidor.
Isso envolve desde adaptações físicas até revisão de jornadas, serviços e comunicação.
Além disso, há um desafio simbólico importante. Muitas marcas ainda tratam o universo pet a partir de uma estética superficial, baseada apenas em fofura ou humor. Esse tipo de abordagem pode gerar conexão pontual, mas não responde à complexidade do papel que os pets ocupam hoje na vida das pessoas.
Se o pet é parte da família, da rotina e das decisões, ele precisa ser tratado com a mesma seriedade estratégica.
O que está realmente mudando
O crescimento do mercado pet não é apenas um fenômeno econômico. É um reflexo de transformações mais profundas na forma como as pessoas vivem, se relacionam e constroem vínculos.
Em um contexto de novos arranjos familiares, rotinas urbanas mais solitárias e relações cada vez mais mediadas por tecnologia, os animais de estimação assumem um papel central na construção de afeto, companhia e estabilidade emocional.
E, como toda relação relevante, essa também se traduz em comportamento de consumo.
Fonte: Opinion Box, Pesquisa Mercado Pet no Brasil 2026. Coleta: fevereiro de 2026.
Antônio Netto
Planejamento Estratégico e Consumer Insights
Vencedor do Prêmio Amigos do Mercado 2024 – Planejamento Publicitário
Host do podcast Papo Bizz 🎙️
Gostou desse artigo?
Te convido a contribuir mais sobre o assunto!
Compartilhe sua experiência ou cases interessantes.
Siga meu perfil e acompanhe outros textos!




Comentários