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Salve sua carreira: como sair da execução e chegar na decisão antes que a IA feche a porta

  • Foto do escritor: Freitas Netto
    Freitas Netto
  • há 7 dias
  • 6 min de leitura

A  IA já escreve, resume, cruza planilha, adapta peça, levanta benchmark, formata relatório e sugere dez variações de headline em segundos. Ela executa hoje boa parte do trabalho que sustentou o início e o meio de carreira de milhares de profissionais de marketing no Brasil.


Enquanto isso, as empresas seguem sem enxergar a própria taxa de conversão, sem conectar comunicação a margem e sem critério para decidir onde colocar a próxima parcela da verba.


Automatizamos a produção. A decisão continua vazia.

Os números confirmam o desenho. Os Panoramas RD Station 2026, estudo com cerca de 3 mil profissionais de Marketing e Vendas, mostram que 59% dos respondentes usam IA na rotina, avanço de apenas um ponto percentual sobre o ano anterior.


O uso se concentra em criação de textos (51%), planejamento de estratégia e geração de ideias (44%) e análise de dados ou relatórios (31%). Nas aplicações que dependem de dado organizado e hipótese de negócio, o cenário é outro: 10% operam CRM inteligente, 6% usam análise preditiva e 5% aplicam IA em scoring.


No mesmo levantamento, 87% das empresas pretendem crescer mais em 2026, 75% não bateram meta de vendas em 2025, 54% ainda não têm CRM e 62% não medem a conversão do próprio funil. Menos de 20% relatam ganho concreto de conversão com o uso de IA.


O que vem a seguir é um recorte de carreira sobre esse cenário: o que fazer agora para seguir relevante enquanto a IA assume uma parcela crescente da execução.


A IA está substituindo os juniores


Um working paper de Harvard analisou currículos e vagas de aproximadamente 285 mil empresas americanas e 62 milhões de trabalhadores entre 2015 e 2025. Nas empresas que adotaram IA generativa de forma ativa, o emprego júnior caiu 7,7% em relação às não adotantes seis trimestres após a adoção, enquanto o emprego sênior seguiu em trajetória de alta.


A queda vem de contratação mais lenta, com desligamentos praticamente estáveis. As empresas simplesmente pararam de repor a base.


No Brasil, o FGV Ibre chegou a um diagnóstico convergente. Estudo conduzido mostra que no terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa, o equivalente a 29,6% da população ocupada.


A concentração aparece em serviços, com destaque para informação e comunicação e serviços financeiros. Em análise sobre microdados da PNAD Contínua, o pesquisador Daniel Duque encontrou que jovens de 18 a 29 anos em ocupações mais expostas têm cerca de 5% menos chance de estar empregados e renda aproximadamente 7% menor na comparação com trabalhadores de perfil semelhante em atividades menos expostas.


Traduzindo para o nosso setor: informação e comunicação é a nossa casa. E a lista de tarefas mais expostas descreve exatamente o trabalho de entrada em qualquer agência ou time de marketing do país.


A IA absorveu justamente a tarefa que formava julgamento profissional, antes que existisse um substituto para essa formação.

O ponto que interessa para a sua carreira está aí. O degrau de entrada nunca serviu apenas para entregar volume, mas para você errar em pequena escala, ver o resultado de perto, entender por que uma peça funcionou e outra não, e construir o repertório que depois vira critério.


Com esse degrau mais estreito, contar com o tempo de casa para acumular julgamento ficou arriscado. A formação passa a exigir intenção deliberada de quem está construindo a carreira.


O gargalo agora é decidir


Durante quinze anos, o mercado premiou velocidade de produção. Quem entregava mais peça, mais campanha, mais relatório e mais canal dominado subia mais rápido. Esse critério fazia sentido quando produzir era caro e demorado.


Com produção barata, o gargalo migrou para outro conjunto de tarefas:


  • saber o que precisa ser feito antes de escolher o formato;

  • interpretar o número em vez de reportá-lo;

  • definir prioridade quando tudo parece urgente;

  • entender a consequência financeira de cada caminho;

  • escolher entre alternativas imperfeitas;

  • assinar embaixo da recomendação.


O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta na mesma direção. Pensamento analítico segue como a competência central mais citada pelos empregadores, presente em sete de cada dez respostas.


O relatório projeta que 39% das competências centrais exigidas hoje mudarão até 2030 e registra a lacuna de habilidades como principal barreira à transformação organizacional, apontada por 63% dos empregadores.


Se você quer desenvolver essa competência com profundidade, recomendo o livro As seis disciplinas do pensamento estratégico, de Michael D. Watkins. O livro decompõe o pensamento estratégico em disciplinas que se aprendem e se treinam, com o argumento de que essa capacidade fica mais valiosa justamente com o avanço da IA. Vale a leitura!


Quando a execução vira commodity, o que permanece escasso é o critério de quem decide.

Especialista de ferramenta x profissional de negócio


A saída para esse cenário não passa por abandonar profundidade técnica e virar generalista de reunião. Profundidade rasa em muitas áreas é tão vulnerável quanto profundidade única em uma ferramenta que vai caducar.


A distinção produtiva separa o especialista de ferramenta do profissional capaz de aplicar sua especialidade a um problema de negócio. Continue excelente em mídia, conteúdo, CRM, dados, performance ou social. O que muda é o ponto onde essa excelência desemboca.


Pense em uma escada de cinco degraus:


ferramenta → operação → interpretação → decisão → impacto no negócio


Uma parcela relevante do mercado se acomodou entre o primeiro e o segundo degrau, justamente a faixa que a IA está absorvendo com mais velocidade.


Do terceiro em diante, o trabalho depende de contexto específico, histórico da marca, restrição de margem, apetite de risco e política interna do cliente. Nenhuma plataforma resolve isso sozinha, porque nenhuma delas responde pelo resultado.


Ferramenta tem prazo de validade, e quem constrói identidade em cima de uma ferramenta herda o prazo dela.

5 movimentos para fazer nos próximos 12 meses


1. Aprenda a ler o resultado da empresa que você atende. CAC por canal, margem de contribuição, ticket médio, payback, LTV e churn formam o vocabulário da mesa onde a verba é decidida. Peça para participar da reunião de resultado e peça acesso ao DRE ou, quando esse documento não estiver ao seu alcance, aos indicadores que orientam as decisões de verba.


Em agência, o caminho costuma passar por perguntar ao cliente qual número ele precisa mover e quanto custa servir cada cliente adquirido. Quem só reporta alcance e engajamento continuará sendo avaliado como custo.


2. Entregue recomendação com trade-off explícito. Relatório descreve o passado, e a IA descreve o passado melhor e mais rápido que você. Recomendação assume risco: eu escolheria o caminho A, aceito perder isso, ganho aquilo, e a evidência que sustenta a escolha é esta. Assumir o custo de estar errado é a parte do trabalho que não terceiriza.


3. Trate a IA como equipe júnior sob sua supervisão. Ela gera a primeira versão, levanta o material bruto, testa dez variações. Você define a pergunta, checa a fonte, descarta o que não serve e responde pelo que sai. Profissional que assina o output da máquina sem editar está competindo com ela pelo mesmo lugar.


4. Acumule repertório de campo. Visita a loja, conversa com vendedor, atendimento a consumidor, participação em pesquisa qualitativa e leitura de dado primário constroem um acervo que modelo nenhum tem. Esse acervo é o que permite olhar para um número e desconfiar dele.


5. Construa portfólio de decisão. A maioria dos portfólios de marketing guarda peças. Guarde também as escolhas: o problema que você identificou, a hipótese que formulou, o que decidiu fazer, o que decidiu não fazer, o resultado obtido e o que faria diferente. É esse material que diferencia um executor de um profissional estratégico em uma conversa de promoção ou de nova posição.


Antes que você entenda errado


Estratégia sem lastro de execução produz o estrategista de apresentação de ppt, aquele que recomenda o que ninguém consegue operar. O julgamento defendido aqui se forma exatamente na prática repetida, no erro corrigido e no contato com a restrição real. A execução segue sendo o caminho. O que precisa mudar é tratá-la como destino final.


Uma nota para quem lidera time. Cortar a base para pagar ferramenta resolve o trimestre e cria escassez de gente plena e sênior em três a cinco anos. Pesquisa global da Oliver Wyman mostra que mais de 40% dos CEOs pretendem reduzir a participação de cargos juniores nos próximos um a dois anos, contra 17% que planejam ampliar. Manter posições de entrada com propósito formativo claro, expostas a número e a decisão desde o primeiro mês, é investimento com prazo de retorno.


A janela que se abre agora


Some o degrau de entrada, permanece a exigência de julgamento, cresce a lacuna. Do lado do profissional, essa assimetria abre uma janela: em um mercado saturado de gente que executa bem e carente de gente que decide bem, o segundo perfil ganha poder de barganha a cada trimestre.


A escolha de posicionamento nos próximos anos passa menos por qual ferramenta dominar e mais por qual problema de negócio você se torna capaz de conduzir do diagnóstico à recomendação, respondendo pelo que decidiu.


E fica a provocação :


Se a IA assumisse amanhã tudo aquilo que você entrega hoje, o que sobraria do seu trabalho?

Antônio Netto

Head de Planejamento e Conteúdo na Pullse (Grupo Dreamers). Mestre em Administração, cursando MBA em Inteligência Artificial Aplicada a Negócios na FAAP. Host do Podcast Papo Bizz, sobre marketing, varejo e comportamento do consumidor


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