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SXSW 2026 | Dia 4: IA, comunidade, tecnologias e o que continua sendo profundamente humano

  • Foto do escritor: Freitas Netto
    Freitas Netto
  • 16 de mar.
  • 15 min de leitura

No quarto dia do SXSW 2026, os debates começaram a convergir de forma ainda mais explícita para uma tensão central do nosso tempo: quanto mais a tecnologia avança, mais importante se torna discutir aquilo que ela não substitui.


Se nos últimos dias o festival já vinha mostrando como a inteligência artificial está reconfigurando criatividade, trabalho, mídia e consumo, hoje essa conversa ganhou duas camadas complementares. De um lado, surgiram reflexões profundas sobre como tecnologia, cultura e relações humanas precisam ser repensadas nesse novo cenário. De outro, algumas sessões trouxeram um olhar mais concreto sobre as tecnologias emergentes que podem moldar os próximos anos.


Entre as palestras que acompanhei, quatro discussões se destacaram de forma muito clara. A primeira foi sobre o futuro do storytelling em um ambiente em que narrativas podem se tornar cada vez mais personalizadas. A segunda trouxe uma reflexão importante sobre a relevância cultural das marcas e o papel decisivo das comunidades nesse processo.


A terceira, talvez a mais abrangente do dia, reforçou que o futuro da inteligência artificial não pode ser guiado apenas por capacidade técnica, mas por valores humanos. E a quarta apresentou um panorama das tecnologias emergentes que podem redefinir a próxima década.


A seguir, sintetizo os principais insights que emergiram dessas conversas.



1. The Future of Storytelling in the Age of AI

O futuro do storytelling na era da inteligência artificial



Uma das provocações mais interessantes do dia veio da apresentação de David Rogier, fundador e CEO da MasterClass. A pergunta que abriu a conversa parecia simples, mas carrega implicações profundas:


Se não existem dois leitores, espectadores ou usuários exatamente iguais, por que continuamos consumindo exatamente a mesma história?

A partir dessa provocação, a palestra convidou o público a imaginar um futuro em que a inteligência artificial não servirá apenas para baratear ou acelerar a produção de conteúdo, mas para alterar a própria lógica da narrativa.


Durante décadas, praticamente todas as indústrias avançaram em personalização. Música, notícias, publicidade, redes sociais e e-commerce passaram a operar com algum grau de adaptação ao comportamento do usuário.


O storytelling, no entanto, permaneceu essencialmente industrial. Todos assistem ao mesmo filme, leem o mesmo livro e percorrem a mesma estrutura narrativa.


O que Rogier propõe é que a inteligência artificial pode tensionar esse modelo. Em vez de apenas recomendar conteúdos diferentes para cada pessoa, ela abre a possibilidade de algo mais radical: histórias capazes de se adaptar ao contexto, às preferências e até ao momento específico vivido por quem as consome.


Isso não significa apenas interatividade no sentido clássico, como já vimos em games ou experiências audiovisuais não lineares. A mudança é mais estrutural. A narrativa deixa de ser necessariamente um objeto fechado e passa a ser pensada como sistema, algo mais dinâmico, responsivo e potencialmente personalizado.


Em outras palavras, em vez de simplesmente escolher uma história para você, a tecnologia passa a tornar plausível a ideia de construir uma história para você.


Para explicar melhor esse limite entre criatividade humana e automação, Rogier apresentou uma ideia que ele chama de “Teste Scorsese”. O princípio é bastante direto:


sempre que uma tarefa criativa pode ser executada por alguém com talento extraordinário, repertório cultural profundo e experiência narrativa sofisticada, a inteligência artificial tende a perder.

Mas existe um território em que o talento humano não escala facilmente: a personalização radical. Um grande diretor pode criar uma obra extraordinária para milhões de pessoas, mas dificilmente produzirá versões diferentes daquela história para cada indivíduo. É justamente nesse espaço que a IA começa a operar.


Isso desloca o papel do criador. Quando gerar múltiplas versões narrativas se torna tecnicamente viável, o valor não desaparece. Ele migra.


Sai da simples produção em escala e passa para direção criativa, sensibilidade cultural, curadoria narrativa e capacidade de decidir o que merece existir. Em vez de apenas contar histórias, o criador passa a orquestrar sistemas narrativos, definindo estruturas que depois podem se desdobrar em diferentes variações.


Rogier apresentou um exemplo interessante dessa lógica a partir de experimentos conduzidos pela própria MasterClass. A empresa testou três formatos para ensinar exatamente o mesmo conteúdo: um vídeo tradicional com especialista humano, uma versão conduzida por IA em formato de estudo e uma terceira abordagem que combinava os dois modelos, adaptando formato, linguagem e ritmo ao perfil de cada usuário.


O resultado foi revelador. Quando tecnologia e conteúdo humano foram integrados de maneira estruturada, o tempo necessário para aprendizado caiu drasticamente. O ganho não estava apenas na automação, mas na capacidade de adaptar a experiência educacional ao contexto de cada pessoa.


Essa ideia levanta, no entanto, um dilema importante.


Se as histórias passam a ser hiperpersonalizadas, como preservar experiências culturais compartilhadas?

A resposta proposta na palestra foi pensar personalização não como isolamento, mas como variação dentro de uma arquitetura narrativa comum. Ou seja, diferentes pessoas podem experimentar versões adaptadas de uma mesma história, mas ainda assim compartilhar elementos estruturais que mantêm a experiência cultural coletiva.


No fundo, essa palestra não era apenas sobre tecnologia narrativa. Era sobre uma redefinição do próprio conceito de história.


Em um cenário em que a tecnologia torna possível produzir infinitas variações de um mesmo conteúdo, o diferencial deixa de estar apenas em criar mais histórias e passa a estar em desenhar sistemas narrativos capazes de gerar experiências significativas.


Isso tem implicações enormes para entretenimento, educação, creator economy e, naturalmente, comunicação de marca.



2. You Can’t Create Cultural Relevance Without Community

Você não cria relevância cultural sem comunidade


Se a primeira palestra discutiu como a tecnologia pode reconfigurar as histórias, a segunda trouxe um contraponto decisivo: nenhuma inovação narrativa, por mais sofisticada que seja, garante relevância cultural por si só.


O painel “You Can’t Create Cultural Relevance Without Community”, com Marcus Collins, Patrick O’Keefe, Lisa Rosenberg e Anne Santoro, partiu de uma premissa muito forte:


para marcas, fazer parte da cultura já não é opcional.

Mas essa inserção não acontece por imposição, campanha ou volume de mídia. Ela acontece por pertencimento.


A própria descrição do painel sintetiza bem essa ideia ao afirmar que comunidades não procuram patrocinadores, procuram vizinhos.


Essa formulação desmonta uma ilusão recorrente do marketing contemporâneo. Durante muito tempo, muitas marcas acreditaram que relevância cultural poderia ser produzida de cima para baixo, quase como extensão do investimento em awareness.


Bastaria aparecer no assunto certo, usar o código visual certo, acionar um creator, entrar em uma trend e pronto. O painel rejeita frontalmente essa lógica.


Cultura não é um palco onde a marca entra. Cultura é um tecido vivo de relações, símbolos, rituais e significados compartilhados, organizado a partir de comunidades.

Marcus Collins trouxe uma provocação interessante ao apontar que muitas empresas confundem duas coisas diferentes: informação e intimidade.


Hoje temos mais dados do que nunca, dashboards mais sofisticados, múltiplas plataformas de análise e uma capacidade enorme de monitorar comportamento. Mas intimidade continua sendo construída da mesma forma que sempre foi: com escuta, consistência e tempo.


A tecnologia pode acelerar o contato, mas não necessariamente acelera a confiança.

Esse ponto ajuda a entender por que tantas estratégias orientadas por dados ainda produzem pouca relevância cultural. Dados ajudam a observar comportamentos, mas pertencimento nasce da participação genuína em um ecossistema social.


Outro conceito interessante apareceu na fala de Patrick O’Keefe, da e.l.f. Beauty. Ele descreveu a postura da marca como “zero distance”, ou seja, a tentativa deliberada de reduzir ao máximo qualquer barreira entre empresa e comunidade.


Nesse modelo, a marca não opera como uma entidade externa tentando capturar atenção.


Ela busca operar como parte ativa da própria comunidade, participando de conversas, respondendo rapidamente, adaptando decisões e permitindo que o público influencie o próprio desenvolvimento da marca.


Nesse contexto, confiança deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser requisito básico. A comunidade não se organiza em torno de conteúdo ou campanhas, mas em torno de uma experiência compartilhada de vida.


O painel também trouxe uma referência interessante ao trabalho do antropólogo Grant McCracken, que descreve a existência de duas camadas culturais acontecendo ao mesmo tempo.


A primeira é a cultura lenta, formada por valores, crenças e estruturas simbólicas que mudam muito gradualmente. A segunda é a cultura rápida, formada por comportamentos, tendências e sinais emergentes que se transformam com grande velocidade.


Marcas que compreendem essa diferença conseguem navegar melhor entre identidade e contexto. Sabem onde precisam manter coerência estrutural e onde podem se adaptar às mudanças culturais.


Quando os participantes do painel foram questionados sobre o que as marcas precisam fazer para continuar relevantes nos próximos anos, nenhuma das respostas apontou para tecnologia, plataformas ou formatos.


As respostas giraram em torno de postura. Ouvir mais. Contribuir mais do que extrair. Participar de comunidades em vez de apenas tentar explorá-las.



Essa ideia ajuda a entender por que a discussão insistiu tanto em um ponto específico: 

comunidade não é ativação, é disciplina operacional.

Criar comunidades não significa lançar uma ação pontual, uma hashtag ou uma série de conteúdos. Significa reorganizar a forma como a marca se relaciona com as pessoas ao longo do tempo.


No fim das contas, a provocação central da sessão é bastante clara. As marcas que vão continuar relevantes não serão necessariamente as que falarem mais alto ou produzirem mais conteúdo.


Serão aquelas que conseguirem, de fato, pertencer.


E pertencimento continua sendo uma das poucas coisas que não podem ser compradas em mídia.



3. Keynote: Why the Future of AI Must be Human Centric

Por que o futuro da inteligência artificial precisa ser centrado no ser humano


A keynote de Rana el Kaliouby, em conversa com Bob Safian, foi uma das discussões mais amplas e conceitualmente ricas do dia. Mais do que apresentar tendências tecnológicas ou previsões de mercado, a palestra propôs uma mudança de enquadramento: o futuro da inteligência artificial não deveria ser pensado apenas em termos de capacidade computacional, mas em termos de finalidade humana.


Em um festival tomado por debates sobre automação, criatividade, produtividade e transformação digital, Rana puxou a conversa para um lugar mais estrutural. A pergunta central foi: a serviço de que tipo de experiência humana essa tecnologia será construída.


O eixo mais forte da palestra foi a distinção entre QI e QE. Segundo Rana, a indústria avançou de maneira impressionante na construção de sistemas com alta inteligência cognitiva.


Modelos atuais já conseguem escrever, resumir, prever padrões, gerar código, automatizar tarefas e operar com uma velocidade de processamento muito superior à humana em uma série de contextos. Mas esse avanço, por si só, esconde uma lacuna importante.


A inteligência artificial se desenvolveu com enorme foco em raciocínio, linguagem e cálculo, enquanto permaneceu relativamente pobre na compreensão da dimensão emocional e relacional da experiência humana.

Esse ponto é fundamental porque, para ela, o problema não é apenas técnico. É quase civilizacional. Grande parte da comunicação humana não acontece apenas nas palavras. Ela acontece no tom, no ritmo, na pausa, na expressão facial, no gesto, na postura, na hesitação e no contexto.


Ou seja, uma parcela decisiva daquilo que comunica sentido entre pessoas passa por sinais não verbais. Quando Rana argumenta que a tecnologia ainda é em grande medida “cega” para esse universo, ela está dizendo que os sistemas atuais conseguem processar linguagem, mas ainda têm enorme dificuldade para compreender a espessura humana que existe por trás dela.


É justamente aí que sua defesa de uma inteligência artificial centrada no ser humano ganha profundidade. O argumento não é que máquinas precisem imitar emoções de maneira superficial, nem que devamos romantizar a ideia de uma IA “sensível” como se ela pudesse substituir a complexidade das relações humanas.


O ponto é outro. Se a IA vai mediar cada vez mais interações, decisões, fluxos de trabalho, cuidados e experiências cotidianas, então ela precisa ser projetada levando em conta valores humanos, contexto social, impacto emocional e responsabilidade ética.


Não basta perguntar se a tecnologia funciona. É preciso perguntar para quem ela funciona, como ela afeta a vida real, quais vulnerabilidades ela produz e quais capacidades humanas ela fortalece ou enfraquece ao longo do tempo.


A palestra também foi muito interessante ao desmontar algumas narrativas simplificadas sobre o mercado de IA. Rana reconhece que existe exagero em parte do discurso econômico atual, especialmente em torno de empresas altamente valorizadas e nem sempre sustentadas por fundamentos sólidos.


Ainda assim, ela não compra a ideia de que tudo não passa de uma bolha fadada ao esvaziamento. Pelo contrário. Sua leitura é que a transformação mais profunda ainda está começando, sobretudo em áreas como saúde, trabalho, educação, sustentabilidade e interfaces do cotidiano. Em vez de negar o hype ou embarcar nele de forma acrítica, ela propõe uma posição mais sofisticada: separar o ruído especulativo do potencial concreto de transformação estrutural.


Outro ponto importante da keynote foi a crítica à fantasia da substituição total do humano pela máquina. Rana não nega que empregos, funções e fluxos de trabalho serão profundamente alterados.


Mas ela rejeita a leitura apocalíptica segundo a qual o destino inevitável da IA seria eliminar a relevância humana. O cenário que ela defende é mais complexo e, ao mesmo tempo, mais plausível: o de colaboração.


Em muitas áreas, a inteligência artificial tende a assumir tarefas repetitivas, arriscadas, exaustivas ou operacionais, ampliando a capacidade humana em vez de simplesmente apagá-la. Isso vale especialmente quando ela fala de IA física, robótica e automação aplicada a ambientes industriais e domésticos. A ideia não é glorificar a substituição, mas reposicionar o ser humano em atividades onde julgamento, criatividade, sabedoria, empatia e discernimento continuam sendo decisivos.


Essa parte da fala ficou ainda mais rica quando ela trouxe a noção de world models. Diferentemente dos grandes modelos de linguagem, que aprendem a partir de texto e padrões extraídos da internet, os modelos de mundo buscam compreender o funcionamento físico do ambiente real: espaço, movimento, objetos, fricção, causalidade material.


Esse ponto é muito relevante porque aponta para uma próxima etapa da IA, menos restrita ao universo da linguagem e mais conectada à realidade concreta do corpo, da matéria e da ação.

Isso abre caminho para uma inteligência artificial menos “textual” e mais incorporada ao mundo, com implicações fortes para robótica, casas conectadas, wearables e dispositivos nativos de IA.


Mas talvez a parte mais forte da keynote tenha sido justamente a reflexão final sobre o que fazer, como humanos, diante desse cenário. Rana propõe um deslocamento bastante poderoso: se a IA continuará se tornando mais eficiente em processamento, previsão e execução, então a nossa tarefa não é disputar com ela nesses mesmos termos.


Não faz sentido competir com a máquina no terreno da velocidade, da escala ou da capacidade de cálculo. O movimento mais inteligente é fortalecer aquilo que continua sendo distintivamente humano.


E aqui ela aponta para um conjunto de capacidades que tendem a ganhar ainda mais valor: pensamento crítico, criatividade, intuição, inteligência emocional, comunicação original, colaboração e sabedoria.

Esse ponto da sabedoria é interessante porque ele eleva a conversa. Não estamos mais falando apenas de adaptação profissional ou de novas habilidades de mercado. Estamos falando de maturidade humana diante da técnica.


Rana sugere que, em vez de nos tornarmos apenas mais produtivos com IA, precisamos nos tornar mais conscientes, mais criteriosos e mais conectados com aquilo que a tecnologia não vive por nós.


Quando ela fala em inteligência interior, inteligência corporal e até na necessidade de se reconectar com sinais intuitivos que costumamos ignorar na rotina acelerada, a keynote ganha uma dimensão quase existencial. O avanço tecnológico, nesse enquadramento, não deveria nos afastar de nossa humanidade, mas pressionar a sociedade a redefinir o valor dela.


Essa é a razão pela qual a palestra soou tão importante dentro do SXSW. Se aceitarmos um futuro guiado apenas por eficiência, conveniência e automação, corremos o risco de empobrecer justamente as capacidades humanas que mais importam.


Por outro lado, se formos capazes de construir essa tecnologia com intenção, diversidade, responsabilidade e senso de propósito, a IA pode funcionar não como substituta da humanidade, mas como ferramenta para ampliá-la.


No fim das contas, a grande força da keynote esteve aí. Ela recolocou a inovação em outro patamar. Não como corrida por performance, mas como decisão ética, cultural e humana sobre o tipo de mundo que queremos construir.


E talvez essa seja uma das mensagens mais importantes de todo o SXSW 2026 até aqui: o futuro da inteligência artificial não será definido apenas por laboratórios, investidores ou plataformas. Ele também será definido pela qualidade das perguntas humanas que tivermos coragem de fazer agora.



4. Featured Session: 10 Breakthrough Technologies of 2026

As tecnologias que podem redefinir a próxima década



Outra sessão relevante do dia foi a apresentação conduzida por Niall Firth, que trouxe ao SXSW a tradicional lista anual da MIT Technology Review com as dez tecnologias que a publicação considera ter maior potencial de transformar o mundo nos próximos anos.

Mais do que prever modismos tecnológicos, a proposta da lista é identificar inovações que tenham potencial real de gerar impacto estrutural na sociedade.


O conceito de “Breakthrough”


Para a MIT Technology Review, uma tecnologia só é considerada um verdadeiro avanço quando deixa o ambiente de pesquisa e começa a produzir efeitos concretos no mundo real.


Segundo Firth, esse impacto é analisado a partir de três lentes principais:

Escala: quantas pessoas a tecnologia pode atingir.

Disrupção: o quanto ela altera sistemas ou modelos anteriores.

Profundidade: o quanto ela muda a forma como vivemos ou trabalhamos.


A lógica por trás dessa curadoria é ajudar a sociedade a se preparar para os chamados efeitos downstream, ou seja, as consequências que essas tecnologias podem gerar no longo prazo.


O próprio Firth citou um exemplo emblemático: quando as redes sociais surgiram, poucos anteciparam que elas teriam impacto profundo em temas como saúde mental de adolescentes ou na própria percepção pública da verdade.


As tecnologias que entram na lista de 2026


Entre as dez tecnologias destacadas na edição de 2026 aparecem avanços distribuídos entre energia, biotecnologia, inteligência artificial e infraestrutura digital.


Baterias de íon de sódio surgem como uma alternativa potencialmente mais barata às baterias de lítio. Enquanto o lítio é caro e concentrado em poucos países, como China, Chile e Austrália, o sódio é abundante e pode reduzir o custo das baterias em até um terço. Na China, a empresa Yadea já lançou modelos de patinetes elétricos com essa tecnologia, e a cidade de Shenzhen testa estações de troca de baterias para entregadores.


Na área de software, a codificação generativa aparece como uma das mudanças mais relevantes no trabalho de desenvolvedores. Uma pesquisa de 2025 indicou que cerca de 65% dos programadores já utilizam ferramentas de IA semanalmente.


O Claude Code, da Anthropic, já responde por aproximadamente 4% de todo o conteúdo publicado no GitHub. Curiosamente, estudos mostram um efeito paradoxal: apesar de aumentar a produtividade potencial, essas ferramentas podem tornar o trabalho inicialmente mais lento, já que desenvolvedores precisam revisar e corrigir erros gerados pela IA.


No campo da energia, a lista também inclui reatores nucleares de próxima geração. Com a demanda global de energia crescendo entre 3% e 4% ao ano, novos modelos estão sendo testados, como o projeto Hermes, no Tennessee, que utiliza sal fundido como resfriador, e o reator Ling Long One, na China, que pode se tornar o primeiro pequeno reator modular comercial em operação.


Uma das tecnologias mais inquietantes da lista são os companheiros de IA, sistemas projetados para interação emocional com usuários. Segundo dados apresentados na sessão, cerca de 72% dos adolescentes nos Estados Unidos já utilizaram algum tipo de IA para companhia. Comunidades online dedicadas a esse tipo de relacionamento já reúnem dezenas de milhares de pessoas, o que levanta debates importantes sobre vínculos emocionais mediados por tecnologia.


No campo da biotecnologia, a lista inclui a chamada edição genética de base, uma técnica que permite reescrever letras específicas do DNA em vez de cortar a cadeia genética inteira, como ocorre no CRISPR tradicional. Esse método é considerado mais seguro e já foi utilizado em tratamentos experimentais extremamente complexos.


Outra área é a chamada ressurreição genética. Empresas como a Colossal estão recriando características de espécies extintas inserindo genes antigos em organismos atuais. Entre os experimentos citados estão camundongos geneticamente modificados com características de mamutes e tentativas de recriar traços do lobo terrível. Paralelamente, cientistas trabalham com genes de plantas extremamente antigas para desenvolver culturas agrícolas mais resistentes ao aquecimento global.


No campo da própria inteligência artificial, a lista destaca avanços em interpretabilidade mecanística, uma linha de pesquisa que tenta compreender como os modelos realmente funcionam internamente. Em um experimento curioso, pesquisadores ativaram artificialmente um “neurônio” relacionado à ponte Golden Gate dentro de um modelo de IA, fazendo com que ele passasse a mencionar obsessivamente o tema, inclusive em respostas sobre assuntos completamente diferentes.


A lista também aponta para o avanço das estações espaciais comerciais, que devem substituir a Estação Espacial Internacional após 2030. Empresas privadas já trabalham em soluções que buscam melhorar a experiência humana no espaço, inclusive com novos sistemas de sono adaptados à microgravidade.


Entre as tecnologias mais controversas aparece a chamada pontuação genética de embriões, que analisa o DNA de embriões para prever probabilidades de características futuras. Empresas como a Nucleus Genomics já anunciam serviços desse tipo, o que abre debates intensos sobre bioética e seleção genética.


Por fim, a lista chama atenção para um tema muitas vezes invisível no debate público: o crescimento da infraestrutura energética necessária para sustentar a inteligência artificial. Data centers de IA já consomem quantidades enormes de energia.

Firth citou um exemplo ilustrativo: gerar apenas cinco segundos de vídeo com IA pode consumir tanta energia quanto manter um micro-ondas ligado por mais de uma hora. Estima-se que, até 2030, esse crescimento possa elevar as contas de energia nos Estados Unidos em cerca de 8%.


As tecnologias que quase entraram na lista


Durante a apresentação, Firth também revelou três tecnologias que foram discutidas pela equipe da MIT Technology Review, mas ficaram de fora da lista final.


Entre elas estão contraceptivos masculinos hormonais, que já estão em testes avançados; modelos de mundo, sistemas de IA que aprendem as leis da física observando o ambiente; e soluções de verificação de identidade humana online, consideradas fundamentais em um cenário de expansão de deepfakes e clones digitais.


Curiosamente, ao final da sessão, o público do SXSW ainda adicionou um candidato extra à lista: robôs humanoides avançados, como os desenvolvidos pela empresa Figure, destacando o avanço recente na consciência espacial desses sistemas graças à integração com grandes modelos de linguagem.


Mais do que um inventário de tecnologias emergentes, a apresentação reforça uma ideia importante: as grandes transformações da sociedade raramente vêm de uma única inovação isolada. Elas costumam surgir da convergência de várias tecnologias que amadurecem ao mesmo tempo e passam a reorganizar sistemas inteiros de produção, consumo e interação social.



⚠️ O que tudo isso revela


Embora essas quatro sessões tratem de temas diferentes, elas apontam para uma mesma reorganização cultural. Quando colocamos essas discussões lado a lado, emerge um padrão bastante nítido. O futuro da comunicação e da inovação não será decidido apenas por novas tecnologias. Ele será decidido pela forma como tecnologia, cultura e relações humanas passarão a se combinar.


De um lado, cresce a capacidade de personalizar, gerar, automatizar e adaptar conteúdos em escala. De outro, aumenta também o valor de tudo aquilo que não pode ser reduzido a mera operação: contexto cultural, legitimidade social, leitura simbólica, empatia, curadoria e construção de sentido.


Em outras palavras, à medida que a tecnologia expande a abundância, o diferencial competitivo migra para a capacidade de organizar significado dentro dela.



💡 Um insight importante para o marketing


Para quem trabalha com marketing, branding, estratégia ou creator economy, o aprendizado do dia é bastante claro.


Não basta dominar ferramentas. Não basta produzir mais rápido. Não basta entrar na conversa certa com a linguagem certa.


O desafio passa a ser outro: entender pessoas de forma mais profunda, participar de comunidades com legitimidade, construir ecossistemas narrativos relevantes e acompanhar com atenção as tecnologias que começam a reconfigurar a infraestrutura da sociedade.


Isso exige uma combinação mais sofisticada entre repertório, sensibilidade e estratégia.


Porque, no fim, o que o SXSW parece estar dizendo com cada vez mais clareza é o seguinte: em um mundo em que quase tudo pode ser gerado, automatizado ou personalizado, ganha importância justamente aquilo que continua sendo difícil de sintetizar em código.


A qualidade da escuta. A densidade da interpretação. A legitimidade da presença. E a capacidade de transformar tecnologia em experiência humana com sentido.

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