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"Se quiser vim ver": a lição de marketing que veio do balcão da padaria

  • Foto do escritor: Freitas Netto
    Freitas Netto
  • 31 de jul.
  • 9 min de leitura

Por que o maior risco do pequeno varejo não é ficar para trás na tecnologia, mas usá-la para apagar a própria vantagem que as grandes marcas tentam fabricar


Em março deste ano, um menino de 11 anos acordou, foi arrastado pela mãe até a frente da padaria da família, em Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza, e gravou um vídeo. Ele apresentou os pães, os folheados, os salgados, e repetiu a cada item a mesma frase: "se quiser vim ver". A mãe, Leidiane, contou ao jornal O Povo que gravou uma única vez e postou do jeito que saiu.


Confira o reels aqui:


A Padaria Leidy e Dino tinha nascido em 2021, dentro da garagem de casa, quando o marido ficou sem trabalho na pandemia e aprendeu a fazer pão pela internet.


O vídeo virou meme nacional, gerou uma trend replicada por comércios de bairro do país inteiro e também por centenas de grandes marcas brasileiras publicaram conteúdos seguindo a trend.


Isso levou o negócio de uma garagem a uma reinauguração com reforma e deixou o perfil da padaria com dezenas de milhares de seguidores.


Nenhum briefing. Nenhuma verba de mídia. Nenhum prompt.


Em junho, publiquei uma análise crítica do Marketing 7.0, novo livro de Philip Kotler com Hermawan Kartajaya e Iwan Setiawan, lançado em abril nos Estados Unidos e ainda sem tradução oficial no Brasil.


O argumento central era que a obra se anuncia como tratado sobre a próxima fronteira tecnológica e funciona, na prática, como um acerto de contas com a década em que a própria indústria escalou ruído, miopia de performance e homogeneização.


Mas uma pergunta o livro do Kotler não respondeu: as teorias que ele trouxe servem para quem não tem agência, time de dados nem verba de mídia?


Minha resposta é que serve mais para esse público do que para o público que o livro escolheu endereçar. E que o pequeno varejo brasileiro corre o risco de jogar fora exatamente a vantagem que o Kotler passou 300 páginas tentando explicar.


O livro fala com a corporação, mas o Brasil é feito de mercearia


Vale começar pela lacuna estrutural da obra.


Os cases do Marketing 7.0 são Coca-Cola, IKEA, Duolingo, Mango, Liquid Death. Empresas com departamento de marketing, orçamento de mídia e capacidade de rodar teste multivariado.


Quando o livro discute a homogeneização estética provocada pela IA generativa, ele descreve a dor de quem produz conteúdo em escala industrial. Quando propõe a integração entre construção de marca e performance, dialoga com quem tem as duas verbas separadas em planilhas diferentes.


Esse recorte deixa de fora a esmagadora maioria do tecido econômico brasileiro.


Levantamento do Sebrae divulgado em junho de 2026 mostra que os pequenos negócios somam cerca de 24 milhões de empresas ativas, o que representa 95% de todas as empresas em operação no país e 26,5% do Produto Interno Bruto. Em abril, 84% das vagas formais criadas no Brasil vieram de micro e pequenas empresas.


O varejo que o brasileiro frequenta todos os dias tem balcão, tem dono no caixa e tem cliente pelo primeiro nome. A padaria da esquina, a farmácia do bairro, o mercadinho, o salão, a loja de roupa da rua principal, a assistência técnica, a oficina.


Esse varejo não aparece no livro. E é justamente onde os três sistemas cognitivos que o Kotler descreve operam com menos atrito. Vou te explicar!


Os três cérebros funcionam melhor na padaria do que no anúncio


A parte central do Marketing 7.0 apresenta a bússola cognitiva, um modelo que organiza a mente do consumidor em três sistemas encadeados.


O cérebro da atenção decide, em fração de segundo, o que merece processamento, e descarta automaticamente tudo que tenha cara de publicidade. O cérebro social avalia identificação, ou seja, quem está falando e se parece ser um dos nossos. O cérebro da recompensa pondera benefício contra sacrifício, e é onde a decisão de fato acontece.


Cada sistema impõe uma pergunta à marca. O que captura interesse sem parecer intrusivo? O que gera conexão sem soar falso? O que justifica valor sem parecer manipulação?


Repare no que o vídeo da padaria de Maracanaú faz com essas três perguntas.


O cérebro da atenção foi atravessado porque não havia nada ali com formato de anúncio. Câmera tremida, criança com sono, luz da manhã, uma única tomada. O filtro publicitário não teve o que barrar, porque não havia sinal de publicidade a ser detectado.


O cérebro social foi ativado sem custo, porque quem falava era a família dona do negócio. Kotler recorre, entre outros conceitos, ao viés de grupo e aos neurônios-espelho para explicar por que micro e nano influenciadores convertem mais que celebridades, ainda que a confiança e a identificação envolvam mecanismos sociais mais amplos do que a neurociência sozinha dá conta.


O que interessa aqui é o efeito. O menino radicaliza esse princípio, porque não é porta-voz contratado, é alguém da própria família apresentando o próprio negócio, sem intermediário e sem roteiro.


O cérebro da recompensa foi acionado da maneira mais direta possível, com o produto na mão, o preço no ar e o convite explícito. "Se quiser vim ver."


Uma marca grande gasta milhões tentando reproduzir esse encadeamento. Contrata creator para simular o cérebro social. Encomenda conteúdo de baixa produção para enganar o cérebro da atenção. Constrói narrativa de propósito para dar sentido ao cérebro da recompensa.


O pequeno varejista tem acesso aos três de graça, todos os dias, no balcão.

Nem todo pequeno negócio ativa esse potencial, porque existe mercadinho impessoal e existe loja de bairro que ninguém reconhece. O ponto é que a matéria-prima está ali, ao alcance da mão, sem precisar ser comprada.


O lo-fi no pequeno negócio antecede a estratégia


Um dos capítulos mais aplicáveis do livro do Kotler trata da filtragem agressiva. O consumidor contemporâneo, que o Kotler chama de humano aumentado, aprendeu a pular automaticamente qualquer coisa com aparência de anúncio.


A saída que os autores propõem é o conteúdo lo-fi, cru, sem polimento, capaz de romper o padrão publicitário justamente por se parecer com o que as pessoas veem de amigos.

Para o mercado americano, isso aparece como descoberta tática. Uma escolha estética deliberada, tomada por um time criativo, para simular espontaneidade.


No pequeno negócio brasileiro, o lo-fi antecede qualquer estratégia. Ele é condição de operação. O vídeo sai tremido porque a filmagem é feita entre um cliente e outro. A luz é a que existe na loja. O roteiro é o que o dono sabe falar. A autenticidade que a grande marca tenta fabricar em estúdio é o único formato disponível para quem tem o celular e mais nada.


Aqui mora a ironia central do momento, e ela merece ser dita com todas as letras. A grande marca está gastando dinheiro para parecer pequena. E o pequeno negócio está gastando esforço para parecer grande.

A IA aplicada no lugar errado


E é aqui que a conversa fica "desconfortável".


A pesquisa Uso de IA nos Negócios, conduzida pelo Sebrae em parceria com o FGV IBRE e o Google, ouviu cerca de 5.000 empresas de todos os portes em setembro de 2025.


Entre médias e grandes empresas, a principal finalidade da IA é análise de dados, com 67%. Entre micro e pequenas empresas, a prioridade é marketing e divulgação, com 59%. Entre microempreendedores individuais, esse índice sobe para 74%, com análise de dados despencando para a terceira posição, com apenas 17%.


Esses números não provam, sozinhos, que a voz do dono esteja sendo substituída por conteúdo genérico. Um empreendedor pode usar gerador de imagem para tratar uma foto, chatbot para responder a dúvida de horário e ainda assim continuar aparecendo nos vídeos e atendendo pessoalmente no balcão. O dado mostra concentração de uso, não apagamento de identidade.


O que isso revela é um risco estratégico. O pequeno negócio está concentrando a IA justamente na camada em que ele tinha vantagem estrutural, a comunicação humana, e mantendo intocada a camada em que ele tem fragilidade real, que é estoque, precificação, previsão de demanda, controle de margem.


Quando o dono pede um post pronto ao ChatGPT, ele troca a voz que atravessa o cérebro social por um texto que qualquer concorrente gera com o mesmo comando.


O ganho de tempo é real. A perda de autenticidade também.

Vale registrar o outro lado, para não cair em romantismo. Quem responde 200 mensagens por dia sozinho, cuida do caixa, negocia com fornecedor e ainda tenta postar tem uma restrição de tempo que não é retórica.


Para o MEI, o maior benefício percebido da IA é justamente geração de ideias e economia de tempo. Automatizar a legenda, para quem opera sozinho, é sobrevivência. A crítica não é ao uso da ferramenta. É à hierarquia de aplicação. Automatizar o bastidor libera o dono para fazer o que só ele faz. Automatizar a voz entrega ao algoritmo a única coisa que a concorrência não copiaria.


Esse mesmo erro tem uma versão sem tecnologia, e ela é ainda mais comum. O pequeno negócio cresce um pouco, contrata alguém para cuidar das redes, e a primeira decisão costuma ser profissionalizar o conteúdo. Sai o vídeo tremido do dono, entra o carrossel com identidade visual. Sai o áudio no WhatsApp respondido às 22h, entra o atendimento padronizado.


E, nesse processo, o negócio fica mais bonito e menos reconhecível, porque a padronização estética empurra o conteúdo do pequeno para dentro do mesmo filtro que o consumidor construiu contra a publicidade das grandes.


O cérebro da atenção, que ignorava a marca por parecer anúncio, passa a ignorar a padaria pelo mesmo motivo. E o que se perde em reconhecimento, o pequeno costuma sentir depois em venda.


Aqui é preciso separar duas coisas que costumam ser confundidas. Profissionalizar não é o problema. Um pequeno negócio precisa profissionalizar a qualidade da informação, a frequência de publicação, o registro de imagem, a organização das promoções, o acompanhamento de resultado.


O problema é pasteurizar, trocar a particularidade que torna o negócio reconhecível pela padronização que o dissolve na paisagem. Defender autenticidade não é defender o improviso eterno nem o erro como virtude. É criar estrutura para que a voz seja reconhecida com mais clareza, em vez de estrutura que a apaga.


A grande marca se homogeneíza porque escalou produção com as ferramentas que todo mundo usa. O pequeno se homogeneíza quando decide imitar a grande, e o prejuízo é maior, porque ele não tem verba de mídia para compensar a perda de atenção orgânica.


O que o livro não vê no varejo de rua


O framework falha quando desce do escritório para a calçada, em três frentes.


A primeira é tempo. O livro defende a observação empática como método insubstituível, mas escreve para quem pode alocar um planner em campo por três semanas. O dono do mercadinho faz observação empática oito horas por dia, sem saber que aquilo tem nome, e não tem um minuto para transformar o que vê em insight estruturado. A lacuna é de método, não de percepção, e é uma oportunidade concreta para quem faz consultoria.


A segunda é a economia política das plataformas, silêncio que já apontei na leitura anterior e que pesa muito mais no varejo pequeno. Ele paga taxa de maquininha, comissão de marketplace, custo por clique inflacionado pelo concorrente com mais caixa, e depende de um algoritmo que pode cortar seu alcance da noite para o dia. A dependência que para a corporação é custo de mídia, para o pequeno é sobrevivência.


A terceira é para quem lê o case da padaria com entusiasmo excessivo. O viral não é modelo de negócio. A Padaria Leidy e Dino teve um episódio extraordinário de atenção, e o que decide o futuro dela é o que veio depois, capacidade de produção, gestão de estoque, atendimento no balcão cheio, margem com fluxo dez vezes maior.


Atenção sem operação vira frustração de cliente. Qualquer leitura que transforme esse case em receita de viralização está vendendo ilusão, e essa ilusão é hoje um dos produtos mais lucrativos do mercado de conteúdo para empreendedor.


Conclusão


O menino de Maracanaú não leu o Kotler. Não conhece a bússola cognitiva, não sabe o que é filtragem agressiva e nunca ouviu falar em conteúdo lo-fi. Ele acordou com sono, foi levado pela mãe até a frente da padaria e falou do jeito que sabia falar.


Fez, sem intenção, o que uma década de marketing digital desaprendeu, capturou atenção sem parecer anúncio, gerou identificação sem parecer atuação e ofereceu recompensa sem parecer manipulação.


É esse o ponto. O que o Marketing 7.0 apresenta como vantagem escassa e difícil de construir, aquilo que sobra quando qualquer marca pode automatizar conteúdo, mídia, atendimento e copy, é a condição natural de 24 milhões de negócios brasileiros. Kotler chegou lá observando a saturação do marketing corporativo. O pequeno varejista chegou pela necessidade.


Daí a regra que fecha o argumento. Automatize o bastidor e preserve a interface. Use a IA onde o negócio é frágil, previsão, estoque, margem, organização. Use com parcimônia onde ele é forte, na voz, na presença e na leitura humana que o tornam reconhecível.


O risco, para o pequeno varejo, não está em ficar para trás na tecnologia. Está em usá-la para apagar o que já funciona, no exato momento em que o mercado inteiro redescobre que isso era o ativo.


A tecnologia vai continuar barateando e as ferramentas vão continuar se democratizando.


O que ela não fabrica é uma dona de padaria que aprendeu a fazer pão pela internet durante a pandemia, transformou a garagem em negócio e criou um vínculo com o bairro que nenhum modelo consegue treinar. Quem tem esse ativo deveria pensar duas vezes antes de terceirizá-lo.


E aí, na sua leitura, o pequeno varejo está usando a IA para amplificar o que tem de melhor ou para se parecer com quem ele nunca vai ser?


Me conta nos comentários.



Antônio Netto

Head de Planejamento e Conteúdo na Pullse (Grupo Dreamers).

Mestre em Administração pelo PPGA/UNIFACS, com dissertação sobre TikTok Marketing e estratégias de storytelling em publicações patrocinadas.

Vencedor do Prêmio Amigos do Mercado 2024 – Planejamento Publicitário

Host do podcast Papo Bizz 🎙️


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