O Marketing 7.0 de Kotler e a indústria que esqueceu como as pessoas pensam
- 7 de jun.
- 17 min de leitura

Por que o novo livro de Philip Kotler funciona como diagnóstico cultural sobre os limites do marketing na era digital, e o que ele revela sobre o estado da nossa indústria
Existe uma cena que se repete todos os dias no feed de qualquer pessoa minimamente conectada. Marcas postando o mesmo formato. Reels com trends replicáveis. Carrosséis que poderiam ter saído de qualquer agência. Campanhas que sumiriam se você trocasse o logo no canto do card. Conteúdos institucionais sobre inteligência artificial que repetem as mesmas frases, com as mesmas imagens geradas pelos mesmos prompts.
A sensação de estar diante de uma paisagem uniforme deixou de ser impressão para virar dado da experiência cotidiana de consumir mídia. Essa uniformidade tem origem rastreável.
Nos últimos dez anos, a indústria do marketing apostou em três movimentos simultâneos:
1- Migrou a maior parte do orçamento para plataformas digitais.
2- Adotou o vocabulário de performance como vocabulário oficial da disciplina.
3- Incorporou a IA generativa como motor de produção de conteúdo.
Tomados isoladamente, os três movimentos têm racional sólido. Combinados, produziram um ecossistema em que a diferenciação criativa virou luxo, a autenticidade virou commodity, e o conteúdo de marca passou a parecer uma extensão do próprio algoritmo que ele tenta atravessar.
O efeito colateral acumulado dessas três decisões é justamente o que se vê ao rolar qualquer timeline.
O livro Marketing 7.0: A Guide for Thinking Marketers in the Age of AI, de Philip Kotler, em coautoria com Hermawan Kartajaya e Iwan Setiawan, foi lançado em abril, nos Estados Unidos, e ainda não tem tradução oficial em português.
Por isso, tomo aqui a liberdade de propor uma tradução livre do título: Marketing 7.0: Um guia para profissionais de marketing que pensam estrategicamente na era da IA.
A observação é importante porque, ao longo deste artigo, todos os conceitos e terminologias citados também foram traduzidos livremente a partir da obra original. Quando a edição brasileira for publicada, é possível que o mercado adote nomenclaturas diferentes para alguns dos frameworks apresentados pelos autores.
Feito esse esclarecimento, vale dizer que o aspecto mais interessante do livro talvez não esteja onde ele parece estar à primeira vista. A obra se apresenta como um tratado sobre a próxima fronteira tecnológica do marketing, a ciência cognitiva aplicada à mente do consumidor.
Por baixo dessa promessa, o que existe é uma tentativa de salvar o marketing de um beco em que a própria indústria se meteu. A celebração da tecnologia está lá, mas é o elemento secundário. O movimento central do texto é um acerto de contas com a última década.
Bora entender um pouco mais sobre esse imbróglio?
Um diagnóstico vestido de manual
Se você trabalha com marketing ou comunicação, existe uma boa chance de já ter estudado a famosa evolução do marketing proposta por Philip Kotler.
Talvez você se lembre do Marketing 1.0, centrado no produto, orientado para a produção industrial e eficiência de vendas; do Marketing 2.0, voltado para o cliente, momento em que as empresas perceberam que precisavam conquistar e fidelizar compradores em mercados mais competitivos; ou do Marketing 3.0, que marcou a ascensão das empresas orientadas por propósito, quando passaram a buscar conexões mais profundas com consumidores ao defender causas, valores e uma razão de existir que fosse além da simples geração de lucro.
Os mais atualizados provavelmente chegaram ao Marketing 4.0, era marcada pela transformação digital e pelas redes sociais, muito do conceito omnichannel e da integração físico-digital; e alguns talvez tenham acompanhado também o Marketing 5.0, lançado durante a pandemia, que incorporou à disciplina a inteligência artificial, automação e tecnologia a serviço da personalização em escala e da digitalização forçada pela pandemia, que nos obrigaria a pensar a tecnologia para a humanidade.
E aqui talvez você já não deva ter acompanhado, mas o Marketing 6.0 foi marcado pela promessa da personalização para experiências imersivas que borram a fronteira entre físico e digital, sabe aquela velha promessa utópica do metaverso, que acabou não se concretizando, pois é...
Mas deixa eu te tranquilizar: se você parou no 4.0, ou até mesmo no 5.0, você não está sozinho. A velocidade com que Kotler vem atualizando essa cronologia é quase a mesma com que surgem novas plataformas, novas siglas e novas tendências no marketing. O fato é que a história continuou avançando e, enquanto muita gente ainda usa o Marketing 4.0 como principal referência, o próprio Kotler já está falando de Marketing 7.0.
O Marketing 7.0 chega anunciando que o destino sempre foi a mente humana, e que agora existe base tecnológica para alcançá-la. Uma era da "prosperidade compartilhada" que tem a IA como elemento estruturante.
Essa progressão da disciplina em estágios carrega um subtexto que é mais interessante do que a própria régua evolutiva. Cada estágio recente da disciplina foi celebrado como avanço, e cada um deles trouxe junto um custo que o livro agora reconhece.
A digitalização escalou alcance e escalou ruído. A performance escalou mensurabilidade e escalou miopia. A IA escalou eficiência e escalou homogeneização.
O Marketing 7.0 é, no fundo, o livro em que os próprios autores que defenderam o digital no 4.0 e a IA no 5.0 voltam para arrumar a casa que ajudaram a construir. Há algo de corajoso nisso, e há algo de autocrítico que merece ser lido como tal.
Os números que o livro mobiliza ajudam a dimensionar o cenário:
Um estudo da Gallup com a Telescope apontou que 99% dos norte-americanos usaram pelo menos um produto movido a IA na semana anterior, e dois em cada três sequer sabiam disso.
Um relatório de 2025 da McKinsey indicou que 92% das empresas planejam investir em IA generativa nos três anos seguintes. Um levantamento da The Conversation mostrou que 58% da força de trabalho global já usa IA para ganhar produtividade.
E, em março de 2025, a Universidade da Califórnia em San Diego relatou que o GPT-4.5 passou no teste de Turing, sendo julgado humano em 73% das interações quando instruído a assumir uma persona.
A tecnologia deixou de ser promessa e virou ambiente. A pergunta que o livro coloca é o que sobra para o profissional de marketing dentro desse ambiente.
A armadilha da performance
O capítulo que mais conversa com a realidade de quem opera marketing hoje é o que trata das armadilhas do mundo digital. O diagnóstico é direto. A instabilidade geopolítica e a pressão econômica empurraram as empresas para uma mentalidade de curto prazo. Acionistas cobram resultado rápido.
A remuneração de executivos premia o trimestre e pune o investimento de horizonte longo. O turnover de CEOs bateu recorde em 2025, segundo a Challenger, Gray & Christmas, e o tempo médio de um CMO no cargo caiu para pouco mais de quatro anos, segundo a Spencer Stuart.
Quando a liderança roda nessa velocidade, o planejamento de marca raramente sobrevive ao próprio ciclo de aprovação.
Essa pressão se traduziu em orçamento. Estudos da Deloitte e da Gartner mostram que entre 50% e 60% do gasto de marketing já vai para o digital, e boa parte disso para marketing de performance.
A lógica é compreensível. A performance entrega resultado mensurável, ajustável em tempo real, pago por aquisição. O problema aparece no acúmulo. O excesso de anúncios direcionados produz fadiga publicitária.
A dependência de leilões em plataformas de terceiros eleva o custo de aquisição à medida que mais marcas disputam a mesma audiência. As ofertas por tempo limitado treinam o consumidor a decidir pelo preço e enfraquecem o vínculo. A marca que vive de performance fica presa perseguindo vitórias rápidas enquanto corrói margem e equity.
Kotler nomeia a saída de brandformance, a integração entre construção de marca e performance num mesmo movimento. O exemplo que ele usa é a campanha "U Up?" da IKEA no Canadá, que abordou usuários do Instagram na madrugada com uma expressão da cultura de mensagens noturnas e converteu isso em desconto de colchão, gerando venda imediata enquanto reforçava o posicionamento da marca como melhoria de vida.
O conceito é correto, e vale registrar uma leitura de mercado que o livro não faz. No varejo brasileiro, brandformance descreve uma condição operacional que já está consolidada há algum tempo. Qualquer entrega de planejamento que trate construção de marca e geração de vendas como frentes independentes está dialogando com um modelo de orçamento que boa parte dos grandes varejistas tem abandonado.
Essa leitura dialoga com o que venho escrevendo há tempo. Já tratei do conceito de Bretail (Brand + Retail), que reforça a lógica de campanhas que geram venda sem abrir mão da construção de marca, e de cases de clientes varejistas que criam conceito e narrativa de marca dentro da campanha de varejo, como o case de Birra de Mãe, a Campanha de Dia das Mães da Casas Bahia.
Por isso, o que para Kotler aparece como uma síntese desejável para o futuro da disciplina, no contexto brasileiro já se tornou o ponto de partida da conversa estratégica. A discussão deixou de ser se marca e performance devem caminhar juntas. A discussão passou a ser como equilibrar as duas dimensões sem sacrificar nenhuma delas.
A homogeneização tem três camadas
O ponto mais afiado do livro está na forma como a IA acelera a perda de diferenciação. Vale destrinchar isso, porque a uniformização do marketing digital não acontece em um plano só. Ela opera em três camadas que se reforçam.
A primeira é a camada estética. Os modelos de IA generativa aprendem com padrões do que já existe, e devolvem variações desses padrões. Quando todas as marcas recorrem às mesmas ferramentas, treinadas nos mesmos dados, alimentadas por prompts parecidos, o resultado visual converge.
A própria Coca-Cola sentiu isso ao lançar, no fim de 2024, uma releitura gerada por IA de sua clássica campanha natalina, descrita por boa parte do público como sem alma, com direito a um caractere errado num dos caminhões renderizados. A Mango passou por reação parecida com seu lookbook de IA. A estética uniformizada é a tendência estrutural de uma tecnologia que remixa o conhecido.
A segunda é a camada narrativa. O marketing de performance, somado à recomendação algorítmica, empurra os profissionais para o que já funcionou nas métricas. As marcas começam a copiar o que performou para os outros, em vez de moldar a própria história. A perseguição de tendência vira regra. Cada marca depende das mesmas ferramentas, segue os mesmos formatos virais e produz campanhas que parecem e soam iguais.
A consequência cognitiva está bem documentada no livro através do fenômeno da banner blindness, agora levado ao extremo. O cérebro humano se cabeou para pular qualquer coisa que pareça publicidade. Quando a narrativa de todas as marcas converge, a filtragem do público fica ainda mais agressiva, e métricas como impressão e view passam a mascarar a ausência de atenção real.
A terceira é a camada cognitiva, a mais sutil. A creator economy, a tiktokização do conteúdo, os ganchos das plataformas de vídeo curto e os loops de retenção otimizados moldaram o que as marcas produzem e, no mesmo movimento, a forma como o público aprende a processar informação.
A migração da busca para a IA conversacional, a substituição do conteúdo longo pelo formato bite-sized, a preferência por livestream sobre vídeo editado, tudo isso reflete um sistema cognitivo pressionado pelo volume.
O conteúdo se adapta para caber numa atenção fragmentada, e ao se adaptar reforça a própria fragmentação. A camada cognitiva é onde a homogeneização deixa de ser um problema das marcas e passa a ser uma característica da audiência.
Há um risco de segunda ordem que o livro identifica com lucidez. Os modelos de IA generativa hoje são treinados em conteúdo humano.
À medida que a internet se enche de conteúdo gerado por máquina, os modelos passam a aprender com os próprios outputs anteriores. A homogeneização se realimenta.
O marketing orientado por IA tende a ficar mais uniforme e mais distante da autenticidade que originalmente atraiu o consumidor à marca.
O consumidor que aprendeu a se defender
O quarto capítulo apresenta o arquétipo que sustenta o livro inteiro, o humano aumentado.
É o indivíduo que terceiriza cognição para o smartphone, regula a própria emoção através de conteúdo, socializa primeiro pela tela, consome o que a IA recomenda e transita sem fricção entre o físico e o digital.
Para engajar esse consumidor, Kotler organiza três desafios, e essa tríade me parece a contribuição mais útil do texto para quem opera no dia a dia.
O primeiro desafio é a filtragem agressiva. O humano aumentado pula automaticamente tudo que tenha cara de anúncio. A resposta que o livro propõe é o conteúdo lo-fi, de baixa fidelidade, cru, sem polimento, capaz de romper o padrão publicitário justamente por se parecer com o que as pessoas veem de amigos nas redes.
A estética imperfeita engana o filtro porque sinaliza algo diferente de propaganda. Aqui cabe uma leitura local. O lo-fi, que o livro apresenta como solução emergente, já é cultura estabelecida no Brasil. A criação de conteúdo de baixa produção, espontâneo, gravado no celular, é nativa de uma geração inteira de criadores brasileiros (e estrangeiros) que nunca dependeu de orçamento de produção para existir.
O que para o mercado americano aparece como descoberta tática, no nosso contexto é gramática vernacular há anos.
O segundo desafio é a fragmentação social. Os algoritmos dividem o público em câmaras de eco, tribos nicho e nano comunidades, cada uma com seu tom emocional próprio. A influência migra do alcance de massa para círculos pequenos e coesos, e os micro e nano influenciadores passam a importar mais que as celebridades digitais, porque o cérebro social confia em quem parece ser um dos seus.
O livro ancora isso no in-group bias e nos neurônios-espelho, e a implicação para a marca é incômoda. Adaptar a mensagem para cada tribo aumenta relevância, mas multiplica o custo de produção e ameaça diluir o posicionamento central. A fragmentação resolve um problema de conexão e cria um problema de coerência.
O terceiro desafio é a contenção seletiva (o que Kotler chama de selective frugality). Cansado de perseguir microtendências, o consumidor migra para o consumo intencional, corta gasto no essencial e redireciona orçamento para o que gera alegria pessoal.
Kotler chama isso pelo nome consagrado, o efeito batom, a tendência de manter pequenos luxos acessíveis durante a incerteza econômica, e mobiliza um estudo de 2025 da McKinsey sobre gasto polarizado, o trade-down nas categorias do dia a dia e o trade-up em áreas selecionadas que trazem realização emocional.
Aqui está talvez a leitura mais importante para quem trabalha varejo no Brasil. O efeito batom e a polarização de gasto explicam mais sobre o consumidor brasileiro de varejo do que dez relatórios de tendência. É insight que merece entrar como camada estratégica nas decisões de portfólio, de calendário promocional e de comunicação institucional, e não apenas como observação curiosa de comportamento.
A soma dessas três defesas configura algo que vale enunciar de forma explícita. O consumidor contemporâneo se tornou cognitivamente defensivo. Ele filtra o que parece propaganda, desconfia do que parece massificado e economiza energia mental em quase tudo.
A comunicação comercial padrão, aquela que assume um público disponível e atento, conversa com um consumidor que não existe mais. O Marketing 7.0 reconhece, sem dizer com todas as letras, que a lógica inteira da comunicação precisa ser redesenhada para uma mente que aprendeu a se proteger dela.
A virada cognitiva e suas ferramentas
A parte central do livro apresenta a bússola cognitiva (cognitive compass) o modelo que organiza a abordagem mind-centric marketing. Ela tem duas peças que operam em sequência: o mapa cognitivo, que orienta a descoberta de insight, e os quadrantes de estímulos, que traduzem esse insight em execução.

O mapa cognitivo parte de três sistemas cerebrais que funcionam como um funil dentro da mente do cliente, e a primeira figura ajuda a visualizar a hierarquia. No topo está o cérebro da atenção, o porteiro de tudo: ele decide, em fração de segundo, o que merece processamento e o que será ignorado, e descarta automaticamente o que tiver cara de publicidade.
A mensagem que passa por esse filtro encontra o cérebro social, que avalia identificação: quem está falando, se parece um dos nossos, se soa autêntico ou fabricado. Só então entra o cérebro da recompensa, a camada mais larga da base, onde a decisão de fato acontece: a ponderação entre benefício percebido e sacrifício exigido.
Cada sistema impõe uma pergunta à marca. O que captura interesse sem parecer intrusivo? O que gera conexão sem soar falso? O que justifica valor sem parecer manipulação? A mensagem que falha em qualquer uma das três morre ali, por mais verba de mídia que exista atrás dela.
Os quadrantes de estímulos pegam o insight extraído desse funil e o distribuem em quatro alavancas de execução, organizadas por dois eixos: o racional contra o emocional, e o topo contra o fundo do funil de marketing.

A segunda figura mostra que cada quadrante carrega uma função e um conjunto de perguntas que orientam o trabalho. O storytelling de marca abre a sequência no território emocional do topo, com a função de conectar: qual problema real a história da marca toca, como ela reflete a identidade da audiência, o que a torna digna de ser compartilhada.
A proposta de valor ocupa o racional do topo, com a função de educar: o que diferencia a oferta das demais, que valor funcional e emocional ela entrega, que trocas o cliente deve estar disposto a fazer.
A abordagem de vendas desce ao racional do fundo de funil, com a função de convencer: que comportamentos reforçam credibilidade e confiabilidade, como adaptar a venda a perfis diferentes de cliente, como endereçar a hesitação antes que ela vire desistência.
E a experiência do cliente fecha o ciclo no emocional do fundo, com a função de reforçar: que momentos da jornada merecem virar memória, como engajar os cinco sentidos, como transformar satisfação em hábito e advocacia.
Lidas em conjunto, as quatro alavancas formam um sistema, e a numeração da figura sugere o percurso: conectar, educar, convencer e reforçar acompanham o cliente do primeiro contato à recompra.
A mesma descoberta sobre como aquele cliente pensa alimenta a história que a marca conta, o valor que ela enuncia, a conversa que ela conduz e a experiência que ela entrega.
O capítulo sobre mapeamento cognitivo defende algo que soa contraintuitivo numa era de dados, e está certo ao defender. A observação empática continua insubstituível justamente porque descobre o que a IA não consegue ver. A máquina detecta padrões no que já aconteceu, no que já foi dito e comprado.
Necessidades latentes, contradições entre o que as pessoas dizem e o que fazem, e as gambiarras criativas que os clientes inventam por conta própria, tudo isso só aparece na observação direta.
O case da Liquid Death é exemplar, uma marca de água em lata de cerveja que nasceu de um fundador observando músicos esconderem água em latas de energético no palco. Nenhum dataset apontaria esse desejo de projetar identidade rebelde sem abrir mão da saúde, porque ele ainda não tinha virado comportamento de compra. É a empatia operacional que extrai esse tipo de insight.
Para quem trabalha planejamento, esse capítulo tem uma implicação direta de método. A pesquisa de desk e o dashboard viraram o ponto de partida padrão de qualquer projeto, e o campo virou exceção, cortado de cronograma e de orçamento.
O argumento cognitivo do livro inverte essa hierarquia. Se o insight de ruptura mora na contradição e na gambiarra, e se a IA já entrega a camada de padrão para todo mundo ao mesmo tempo, o planner que vai a campo passa a operar com matéria-prima que o concorrente literalmente não tem. Defender imersão em proposta deixou de ser romantismo metodológico e virou argumento de vantagem competitiva.
Na Parte 3, cada alavanca vira um manual cognitivo próprio.
O storytelling de marca ganha três fórmulas, atenção-decisão para micromomentos de baixo envolvimento, conflito-resolução para construir vínculo emocional de longo prazo, e dor-ganho para decisões racionais de alto envolvimento.
A proposta de valor é reenquadrada como uma equação mental, benefícios funcionais e emocionais divididos por preço e outros custos, mediada por heurísticas como ancoragem, efeito de contraste, prova social, efeito halo e aversão à perda.
A abordagem de vendas evolui para uma Venda 3.0 que coloca o vendedor no lugar do cliente, espelhando a jornada de compra e aplicando persuasão sutil.
E a experiência do cliente recebe nove princípios de design organizados em momentos uau, estímulos multissensoriais e experiências compartilháveis.
Para quem está montando jornada, reposicionando uma marca ou estruturando narrativa, esse conjunto é um cardápio acionável, daqueles que dão framework para defender escolha criativa em conversa com cliente.
Para creators e para quem constrói estratégia de influência, há uma leitura adicional que vale registrar. As três fórmulas de storytelling explicam, em linguagem de neurociência, por que o conteúdo de criador converte onde o anúncio tradicional falha.
O criador opera nativamente no caminho atenção-decisão, com gancho nos primeiros segundos e chamada de ação embutida na narrativa, e ao mesmo tempo carrega o capital do cérebro social, a confiança de quem parece ser um dos seus.
A marca que trata creator como mídia de alcance está comprando só metade do ativo. O valor inteiro está em tratá-lo como portador de uma gramática narrativa que o público já decidiu não filtrar.
O que o mercado brasileiro já praticava
Um leitor brasileiro atento percebe que parte do que o livro nomeia como novidade já estava em operação por aqui, às vezes antes de existir o vocabulário para descrever. O storytelling de personagem é o caso mais claro.
Kotler celebra mascotes como o Duo, a coruja do Duolingo, como vanguarda da estratégia de marca centrada em atenção e hábito. O varejo brasileiro construiu personagem de marca como linguagem de relacionamento muito antes disso. O Pin, do Ponto Frio, e a Lu, da Magazine Luiza, já faziam mediação afetiva entre marca e consumidor, sustentando narrativa contínua e presença cultural, quando o framework cognitivo que explica por que isso funciona ainda nem tinha sido escrito.
As Casas Bahia operam há décadas uma relação com o consumidor popular que mistura crédito, acolhimento e presença que o livro só agora consegue traduzir em linguagem de neurociência aplicada.
O mesmo vale para a estética lo-fi, para o brandformance e para o efeito batom, já mencionados. A leitura que proponho não diminui o livro. Ela apenas reposiciona a relação entre teoria e prática.
O Marketing 7.0 oferece um vocabulário cognitivo poderoso para nomear, organizar e defender práticas que mercados como o brasileiro vinham executando por intuição cultural e necessidade de sobrevivência competitiva. O valor do framework não está em inventar o fenômeno. Está em dar à intuição uma estrutura que se sustenta numa sala de reunião.
Meu ponto crítico: onde o livro "fecha os olhos"
Manter a honestidade analítica exige apontar os limites. O Marketing 7.0 acerta o diagnóstico geral e tropeça em três frentes.
A neurociência que ele mobiliza é seletiva e, em vários momentos, simplificada a ponto de o próprio texto admitir que usa modelos já superados, como o cérebro triúno, por conveniência didática.
Os exemplos são majoritariamente americanos e asiáticos, e o livro raramente situa o fenômeno em mercados emergentes, onde o orçamento apertado, o crédito e a informalidade reescrevem boa parte da lógica de consumo que ele descreve.
E há um silêncio estratégico sobre a economia política das plataformas. O livro descreve a homogeneização e a fadiga publicitária como se fossem efeitos quase naturais da tecnologia, sem encarar que existe um modelo de negócio de leilão, retenção e captura de atenção desenhado para produzir exatamente esses efeitos e para capturar o valor que a marca gera.
Quem ler procurando legitimação de prática vai encontrar com folga. Quem ler procurando ruptura analítica vai sair com a impressão de que o Marketing 7.0 funciona como uma nova interface vocabular para discutir o que a indústria já discutia desde o 5.0.
A empatia como vantagem competitiva concreta
Ainda assim, o livro acerta no que importa mais. Num ambiente em que qualquer marca pode automatizar conteúdo, segmentação, mídia, atendimento, recomendação e copy, a eficiência virou commodity.
O diferencial competitivo se desloca para a sensibilidade cultural, a interpretação humana, a construção simbólica e a capacidade real de gerar conexão. A empatia, palavra gasta em palestra motivacional, está sendo redescoberta como vantagem concreta e operacional, com aplicação direta no método de trabalho.
Trata-se da empatia traduzida em prática. A capacidade de observar o consumidor no ambiente natural e ler tensões que dashboard nenhum captura. A capacidade de construir histórias ancoradas em ansiedades reais, com substância que persona genérica de briefing nunca alcança.
A capacidade de desenhar uma experiência que faça o cliente sentir cuidado nos momentos em que o atendimento padronizado falha. A capacidade de treinar uma equipe de frente para ler contexto fora do roteiro. Tudo isso é empatia convertida em entrega.
E talvez seja exatamente por isso que, no momento em que o marketing alcança seu maior nível de automação, o próprio Kotler volte a falar de mente, emoção, atenção, recompensa e conexão social.
A tecnologia escala o que funciona. Quem decide o que funciona continua sendo humano, e vai continuar sendo enquanto a IA permanecer presa a remixar padrões existentes sem desenvolver a capacidade de criar significados novos.
Significado nasce de experiência subjetiva, de memória episódica, de inteligência fluida, da capacidade de imaginar futuros que ainda não existem. Tudo isso, como o próprio livro reconhece, é onde a IA segue estruturalmente limitada.
Talvez o Marketing 7.0 fique nos próximos anos como o livro que marcou o momento em que a indústria parou de fingir que estava tudo bem.
Que assumiu que o digital virou excesso. Que admitiu que a IA escalou a homogeneização junto com a eficiência. Que reconheceu que o consumidor já desenvolveu defesas cognitivas contra a comunicação comercial padrão. E que devolveu ao centro da conversa a pergunta que vinha sendo evitada havia uma década.
Como é a mente humana que estamos tentando alcançar, afinal?
Se toda marca agora tem acesso às mesmas ferramentas, talvez a verdadeira vantagem competitiva tenha voltado a ser aquilo que nunca deveria ter saído do centro da disciplina: compreender pessoas.
Concorda com essa leitura do livro? E na sua operação, a empatia já virou método ou ainda é discurso? Me conta nos comentários!
Antônio Netto
Planejamento Estratégico e Consumer Insights
Vencedor do Prêmio Amigos do Mercado 2024 – Planejamento Publicitário
Host do podcast Papo Bizz 🎙️
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